O Brasil dividido e reinventado

14 de julho de 2017 | por Filipe Isensee

Com quantos detalhes se conta uma história? Difícil responder, ainda mais quando a história que se conta é a de um país, cuja idade oficial já ultrapassou os 500 anos. Sim, cara pálida, estou falando do Brasil – de um Brasil que se tornou Brasil, de canto a canto, aos pouquinhos. Escrito por Eduardo Bueno, Capitães do Brasil está repleto dessas miudezas que, juntas, formam o contexto que ajudam a entender a formação dessa pátria amada, idolatrada. Salve! Salve! Aliás, salvar é um dos verbos fortes do terceiro livro da Coleção Brasilis, mas talvez o mais importante deles seja dividir. O dicionário diz: “separar em partes”. No caso do Brasil, separar em capitanias hereditárias. Um dos objetivos, claro, era livrar o Brasil de ameaças estrangeiras. A iniciativa deu certo?

*** Atenção: o texto a seguir contém spoilers ***

Certo, certo, certo, certo, assim muito certo mesmo, não deu, não.

Vamos às palavras-chaves dessa história?

 

Dinheiro 

O dicionário diz: “meio de troca”, “modo de pagamento”. Não se chegaria ao Brasil sem ele, tampouco se viveria aqui se não houvesse a ambição de encontrá-lo e multiplicá-lo de maneiras infinitas, do pau-brasil ao açúcar.

Em Portugal do século XVI, a moeda corrente era o cruzado, embora a moeda de conta – ou seja: não existe materialmente, mas vale como unidade de cálculo – fosse o real. Um cruzado equivalia a 400 reais e a 3,5 gramas de ouro. Um trabalhador braçal recebia 10 cruzados mensais; uma nau, por sua vez, custava 20 mil cruzados.

Quando a iniciativa de lotear o Brasil entre donatários deus errado, Portugal decidiu comprar a capitania da Bahia para instalar o Governo-Geral e desembolsou 16 mil cruzados por ela, pagos em prestações anuais. Ou seja: “A Bahia inteira valia menos que uma nau”, destaca Bueno.

 

Morte

O dicionário diz: “óbito ou falecimento”. Talvez a pergunta mais apropriada para o começo do texto seria: com quantas mortes se faz uma história? A do Brasil certamente não deixa a desejar àquelas vistas em Guerra dos Tronos: muita gente decapitada, esquartejada, devorada, morta a flechada e tal.

Por essa perspectiva, a morte do rei D. Manoel pode ser considerada até banal. O homem coroado morreu em dezembro de 1521, aos 61 anos, vitimado por um surto de peste que assolou Portugal. Apesar do oceano separando o país descobridor do descoberto, o óbito movimentou as peças da exploração do Brasil. Quem assumiu o trono foi Dom João III, então aos 19 anos. Sim, Mark Zuckerberg criou o Facebook aos 23 anos; E Dom João III foi rei aos 19. Conforme-se.

 

Amizade

D. João III

O dicionário diz: “Afeição recíproca entre pessoas”. Nada como ter amigos, não?

Ora, pois, Dom João III tinha dois amigões do coração que o acompanharam durante infância e juventude: os primos Martim Afonso e Antônio de Ataíde. A influência da dupla preocupava D. Manoel, segundo relatou um dos cronistas oficiais do reino: “Martim Afonso e D. Antônio de Ataíde eram tão contínuos com o príncipe, e o príncipe com eles, que não podia estar momento sem eles, e estando com eles não falava nem folgava com nenhuma cousa senão com eles, de modo que El Rei [D. Manoel], imaginou que podia ser feitiço”. Ih, muita coisa aconteceu, até Ataíde se tornar um dos braços direitos de Dom João III e, a fim de evitar a influência de Martim, convenceu o rei a enviar o primo para a expedição ao Brasil, considerada uma viagem perigosa. Amizade comovente, né?

Martim foi e levou o irmão Pero Lopes junto.

 

Dividir

Capitanias Hereditárias

Antes da divisão, uma constatação: a ideia de separar o Brasil em territórios menores foi uma tentativa de impedir o assédio dos franceses que, com seu charme habitual e sotaque carregado, queriam tomar conta do país. Ciente do poder nocivo de um “merci bocu” bem dado, Portugal contra-atacou. Do ponto de vista econômico, era uma decisão delicada, já que o país estava em crise financeira – eita palavrinha que nos acompanha desde sempre, né? -, e veio de Ataíde a sugestão de entregar à iniciativa privada a obrigação de ocupar a colônia. Eram as capitanias hereditárias. Ele teria dito a cada um dos 12 capitães do Brasil: “Tem que manter isso aí, hein?”.

Foi Duarte Coelho o primeiro donatário a receber uma capitania, em 10 de março de 1534. O moço, bem-visto pela Coroa, recebeu aquele que era considerado o melhor lote da colônia – o atual litoral de Pernambuco e Alagoas, com 300 quilômetros -, com terras férteis, apropriadas à lavoura canavieira, e também o mais próximo de Portugal.

 

Salvar

O dicionário diz: “livrar do perigo e da ruína”. Pois é, o Brasil – na visão dos portugueses – estava assim, à beira do abismo. As capitanias não deram certo. Até mesmo a comandada por Duarte Coelho, que desfrutava de algum sucesso, vivia em conflitos constantes contra os índios e não conseguia impedir a ação de traficantes de pau-brasil. O país precisava ser reinventado de novo, e a solução encontrada foi estabelecer um Governo Geral – todo o sistema judiciário, fiscal e administrativo seria centralizado nas mãos do governador-geral, deixando de ser atribuição dos donatários.

Ataíde – sempre ele – teve uma conversa com os poderosos políticos de Portugal e deu um jeito de colocar seu primo-irmão na jogada. Ele disse (mais ou menos) assim: “Rapaz, a solução mais fácil era botar o Tomé de Souza. É um acordo: botar o Tomé, num grande acordo nacional”.

Fizeram uma votação improvisada. O fidalgo Tomé de Souza ficou em primeiro lugar e se tornou o primeiro governador do Brasil.

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