John Lennon e Paul McCartney: uma parceria inigualável

13 de julho de 2017 | por Caio Soares

A parceria artística entre John Lennon e Paul McCartney é uma das colaborações mais conhecidas e bem-sucedidas da história do rock. Durante a existência dos The Beatles (1962-1969), os dois escreveram cerca de 180 canções, construindo um catálogo recheado de clássicos e que renderam mais de 700 milhões de discos vendidos. Ao contrário de muitas parcerias musicais que separam de forma bem definida o trabalho do compositor e do arranjador, tanto John quanto Paul estavam por trás dos versos e melodias de grande parte das músicas lançadas pelo quarteto de Liverpool. Baseados num acordo firmado antes do sucesso do grupo, Lennon e McCartney concordaram em dividir o crédito nas canções compostas por qualquer um dos dois enquanto a banda existisse.

Mas engana-se quem pensa que o clima era sempre amigável entre a dupla. A parceria Lennon-McCartney foi marcada por uma rivalidade sadia (na medida do possível), com testes constantes dos limites criativos dos músicos. Para aumentar a controvérsia, declarações de ex-membros da banda e herdeiros do espólio feitas ao longo das décadas continuaram a reacender a discussão e contribuir na construção da mitologia ao redor do processo de composição das letras e músicas dos The Beatles.

 

O começo

Quando Lennon e McCartney se conheceram no dia 6 de julho de 1957 e começaram a compor músicas juntos, eles combinaram que todas as composições escritas individualmente ou em dupla seriam creditadas para os dois. A data precisa do acordo é desconhecida; no entanto, John Lennon, em entrevista realizada para o jornalista David Sheff em 1980, comentou que o acordo informal aconteceu quando os dois tinham “quinze ou dezesseis anos”. Duas músicas compostas majoritariamente por Lennon em 1957, “Hello Little Girl” e “One After 909”, foram posteriormente creditadas à dupla na década seguinte (“One After 909” entrou no último disco da banda, Let it Be). Porém, a música mais antiga dos Beatles com a assinatura da dupla a ser lançada de forma oficial foi “You’ll be Mine”, gravada no banheiro da casa de Paul em 1960, mas curiosamente divulgada só 35 anos depois na coletânea Anthology 1.

 

1962 – 1969: uma parceria inigualável

(William Vanderson/Fox Photos/Getty Images)

Em outubro de 1962, os Beatles lançaram Love Me Do, o primeiro single da banda. A ordem dos nomes foi, inicialmente, objeto de controvérsia. Em entrevista à revista Esquire em 2015, Paul McCartney relata que os dois primeiros compactos e o primeiro LP (Please Please Me) saíram com os créditos “McCartney/Lennon”. Posteriormente, propôs-se a inversão dos nomes, mas Paul foi contra: “Tivemos uma reunião com (o empresário da banda) Brian Epstein. Quando cheguei, Brian e John estavam conversando e propuseram que deveríamos creditar as músicas como Lennon/McCartney. Disseram que assim soava melhor e eu respondi que, para mim, não, pois, e se eu tivesse escrito a música? Eles entenderam e falaram que iríamos alternar os créditos, mas isso nunca aconteceu”, relatou o ex-beatle.

Apesar do desentendimento inicial, a ordem foi alterada, e virtualmente todas as músicas da dupla receberam os créditos “Lennon/McCartney”, até a dissolução do grupo no fim da década de 1960. Em várias ocasiões, especialmente no princípio, a colaboração entre os dois era extensiva, com a dupla trabalhando “olho no olho”, como Lennon gostava de falar. Músicas como She Loves You e I Want to Hold your Hand são exemplos deste processo conjunto de composição.

Desde o início, cada canção já trazia a assinatura de John ou Paul, pois, ainda que unidos pelo amor ao rock ‘n’ roll americano, eles abordavam de maneira significativamente diferente o processo de composição. As canções de Paul eram melódicas e otimistas, e não entregavam muito quanto às suas paixões e ansiedades. As de John tendiam a ser mais rítmicas, com uma perspectiva pessimista e nostálgica. No início, a maior parte das entrevistas com os Beatles ignorava por completo a autoria das canções. Mesmo depois de eles produzirem algo como A Hard Day’s Night, o primeiro álbum somente com canções de Lennon e McCartney, a imprensa não demonstrava interesse pelo processo de composição, de onde vinham as ideias ou quanto de si revelavam nas letras.

Foi só com o lançamento de álbuns mais reflexivos (Revolver, Sgt. Pepper’s) e o interesse da de veículos mais reconhecidos da imprensa britânica e norte-americana que os Beatles passaram a ser entrevistados como artistas capazes de discutir o processo criativo. À medida em que o grupo foi aumentando o nível de complexidade das canções, tornou-se mais comum para um dos dois escrever toda ou grande parte da canção, com participação limitada do outro. Um clássico exemplo do modus operandi dos Beatles nesta época é A Day In the Life, presente no seminal álbum Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1967.

Os primeiros versos da música, escritos por Lennon, contam as experiências cotidianas de um homem comum, que lê o jornal e reflete sobre notícias corriqueiras e/ou absurdas, culminando na polêmica frase “I’d Love to turn you on”, que fez com que a BBC banisse a música de sua programação. De repente, a música ganha outro ritmo. Como um interlúdio surreal dentro do cotidiano do eu-lírico, a voz de Paul McCartney entra (“Woke up, fell out of bed…”) após o toque do despertador, em uma mudança de ritmo e clima, para depois voltar à fala de John e finalmente chegar no crescendo orquestral que se encerra com um dos acordes mais famosos da história da música popular. Em The Beatles, o jornalista Steve Turner resume a importância da parceria entre os dois e como as diferenças criativas enriquecia o quarteto.

“Separadas, a canção de John sobre eventos coletados a esmo em jornais e a de Paul sobre ir à escola na Liverpool dos anos 1950 teriam sido relativamente sem importância. A genialidade da produção se encontrava na costura das duas canções para criar movimentos distintos e o uso de uma orquestra entre as duas seções e no final. Este arranjo a transformou em uma peça sobre dois níveis de consciência ou duas formas de se enxergar o mundo, em que observações mundanas sobre acidentes de carro e a rotina matinal são interrompidas pelo som da transcendência que se aproxima”.

Para se ter uma noção da complexidade de criação que a banda havia alcançado na época, o processo de gravação de A Day in The Life durou 34 horas. Em comparativo, toda a gravação de Please, Please Me, álbum de estreia dos Beatles, durou 10 horas e 45 minutos.

 

Controvérsias pós-Beatles

(Larry Ellis, Getty Images)

As entrevistas concedidas pelos dois compositores ao longo das décadas esclareceram muito sobre a verdadeira autoria das músicas dos The Beatles, bem como a contribuição individual em cada uma das composições. No entanto, algumas músicas foram motivos de controvérsias. “Eleanor Rigby”, música do álbum Revolver, de 1966, foi escrita primeiramente por Paul McCartney. Porém, John Lennon afirmou em entrevistas posteriores ao término do que teria “escrito metade da letra ou até mais”. Em sua biografia, McCartney garante que “Eleanor Rigby” seria, de fato, um trabalho solo, onde a contribuição de Lennon foi nenhuma. Em “In My Life”, do álbum Rubber Soul e uma das músicas mais emblemáticas do estilo composicional de John Lennon, Paul revelou que teria composto a melodia da música.

Porém, a maior controvérsia reuniu-se em torno de “Yesterday”, balada do disco Help! e uma das músicas mais regravadas da história. Em entrevista para a Esquire, Paul revelou que a mágoa sobre os créditos da canção se manteve por décadas. “A arte original do single vinha com os créditos John Lennon e Paul McCartney, e uma foto de John. Isso me deixou bastante magoado, porque John não teve nada a ver com a música, nenhum dos outros integrantes teve alguma participação nessa música. Eu escrevi, eu cantei sozinho, ninguém se envolveu.”, desabafou o ex-Beatle. Paul até modificou a ordem dos créditos de algumas músicas dos Beatles em trabalhos posteriores (na banda Wings ou em carreira solo), em uma decisão que chamou a atenção de Yoko Ono, viúva de Lennon. Após um princípio de atrito, o próprio Paul colocou panos quentes na história, declarando que “Lennon/McCartney era uma das assinaturas mais emblemáticas da história do rock”.

 

Legado

(Stroud, Express, Getty Images)

Independente de polêmicas e controvérsias, o legado da parceria entre os dois Beatles é inegável. Primeiramente uma banda de covers, os Beatles precisavam se diferenciar de todos os grupos de rock que surgiam na Liverpool dos anos 1960. Para Paul, isso só foi possível graças ao talento de Lennon. “É algo que eu gosto de falar porque desmitifica a história de Lennon/McCartney. Em vez de dizer que foi a grande musa que desceu sobre nós, foi na verdade uma necessidade. Depois, chegou um instinto competitivo. O melhor de John e eu escrevendo juntos era que competíamos um com o outro sem parar, e isso era muito salutar. Dizíamos: ‘Droga, ele acabou de compor Strawberry Fields. Melhor eu compor Penny Lane’. Os anos anteriores à sua morte (em 1980) foram dolorosos, sobretudo com relação à separação dos Beatles. Mas, como todo mundo, bloqueio as coisas ruins. Eu não gosto de ficar nelas. Por isso, mesmo agora, quando penso em John, penso em nós escrevendo juntos A Day in a Life. Coisas assim. Prefiro ficar com as coisas boas.”

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