10% mais feliz

12 de julho de 2017 | por Editora Sextante

– Que imbecilidade.

Foi assim que o cabo Jason Lindemann, um rapaz de 20 e poucos anos, descreveu sua primeira impressão sobre a prática de meditar.

– A primeira vez que nos mandaram fazer isso, só pensei: “Ai, que saco.” – ele me contou.

O cabo Lindeman e eu estávamos conversando em Camp Pendleton, uma base dos fuzileiros navais no sul da Califórnia.

– Então você achava que meditar seria inútil no seu caso? – perguntei.

– Isso mesmo – respondeu, sem qualquer hesitação.

Lindeman havia sido escolhido para participar de um estudo científico encomendado por oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais. O interesse dos militares foi despertado por novas pesquisas convincentes sobre a meditação. As evidências científicas estavam atraindo grupos surpreendentes – antes céticos convictos, mas que agora empregavam a atenção plena de formas também surpreendentes. Essas novas perspectivas revolucionariam meu relacionamento com o trabalho e derrotariam de uma vez por todas a noção de que a meditação tornaria as pessoas “totalmente ineptas”.

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Em minhas viagens para seminários budistas, ouvi falar de várias pesquisas científicas sobre meditação. Pareciam promissoras, então resolvi investigá-las. O que descobri me deixou maravilhado. A meditação, que já fora parte da contracultura, agora era respaldada por estudos sérios. Havia milhares deles, sugerindo uma lista quase inacreditável de benefícios à saúde, incluindo melhora nos sintomas de:

• Depressão grave
• Vício em drogas
• Compulsão alimentar
• Fumo
• Estresse em pacientes de câncer
• Solidão em pessoas idosas
• Transtorno de déficit de atenção
• Asma
• Psoríase
• Síndrome do intestino irritável

Estudos também indicavam que a meditação reduz os níveis dos hormônios do estresse, reforça o sistema imunológico, aumenta o foco e a concentração e melhora o desempenho de estudantes. Aparentemente, a meditação só não era capaz de fazer as pessoas se comunicarem com animais e entortarem colheres com o poder da mente.

Essa explosão de pesquisas começou com um juBu chamado Jon Kabat-Zinn, um microbiólogo formado no MIT que alegou ter tido uma epifania – “uma visão”, como dizia – durante um retiro em 1979. Essa visão era a de que ele poderia levar a meditação para um público muito maior se a despisse da metafísica budista. Kabat-Zinn criou um método de oito semanas chamado Redução do Estresse Baseada na Atenção Plena (MBSR), que ensinava meditação secular para milhares de pessoas nos Estados Unidos e no resto do mundo. Ter um protocolo de meditação simples tornou mais fácil testar os efeitos dessa prática nos pacientes.

As coisas tomaram um rumo de ficção científica quando os pesquisadores começaram a examinar os cérebros de meditadores usando ressonância magnética. Um estudo de Harvard descobriu que as pessoas que participavam do curso de oito semanas de Kabat-Zinn tinham mais massa cinzenta nas áreas do cérebro associadas à autoconsciência e à compaixão, enquanto as áreas associadas ao estresse diminuíam. Esse estudo pareceu confirmar o poder de responder em vez de reagir. As regiões em que a massa cinzenta encolheu eram, em termos evolutivos, as partes mais antigas do cérebro humano, bem acima da coluna espinhal, que guardam nossos instintos mais básicos. Por outro lado, as áreas que cresciam eram as partes mais novas do cérebro, como o córtex pré-frontal, que evoluiu para nos ajudar a regular nossas urgências primais.

Outro estudo, realizado em Yale, examinou a parte do cérebro conhecida como rede de modo padrão, que é ativada quando ficamos perdidos em nossos pensamentos – ruminando sobre o passado, projetando o futuro ou pensando obsessivamente em nós mesmos. Os pesquisadores descobriram que os meditadores desativavam essa região não só enquanto praticavam como também fora da prática. Ou seja, a meditação criava uma nova rede de modo padrão no cérebro. Podia sentir isso acontecendo comigo. Eu me via cultivando uma espécie de nostalgia do presente, desenvolvendo um reflexo de esmagar pensamentos inúteis e notando mais as coisas que aconteciam à minha volta: um bafo de ar quente vindo da ventilação do metrô, o tapete de luzes nas periferias das cidades que eu via do avião antes de aterrissar, o reflexo da luz nas ondas formadas pelos barcos. Nos momentos em que era temporariamente capaz de silenciar minha mente de macaco e apenas vivenciar o que acontecia ao meu redor, eu sentia de novo um gostinho daquela felicidade que experimentara durante o retiro.

Embora os cientistas enfatizassem que essas pesquisas ainda estavam em estágios embrionários, os estudos ajudaram a demolir um dogma neurocientífico que havia prevalecido durante gerações: a velha ideia de que o cérebro para de se desenvolver quando chegamos à idade adulta. Essa ortodoxia agora era substituída por um novo paradigma, chamado neuroplasticidade. O cérebro, na verdade, está constantemente se modificando em resposta às nossas experiências. É possível esculpi-lo com a meditação, assim como aumentamos e tonificamos os músculos por meio de exercícios físicos.

O que a ciência estava mostrando era que nossos níveis de bem-estar, resiliência e controle de impulsos não são traços de nascença, parte de nós que devemos aceitar como fato consumado. O cérebro, órgão da experiência, através do qual vivemos nossas vidas, pode ser treinado. A felicidade é algo que aprendemos a cultivar.