Uma conversa para compreender as cinco feridas emocionais

29 de junho de 2017 | por André Sequeira

Uma pessoa importante e conhecida da maior parte da sociedade, ao morrer de uma doença grave, viu-se frente a frente com um Ser maior. Ele não era representante específico de religião alguma, mas uma Entidade que representava todos nós.

A conversa decidiria o destino da alma do recém-chegado, se ela descansaria em paz e voltaria sem “débitos” ou se retornaria para resolver questões deixadas em aberto. Chegava a hora da sabatina decisiva.

O papo foi difícil. Ele alegou ter sido muito sofrido tanto física quanto emocionalmente. A Entidade perguntou, então, de onde vinha esse sentimento:

– Senhor, desde pequeno meu pai me rejeitou, me tratou como alguém desimportante e nunca me elogiou. Com o tempo, fui me sentindo cada vez mais desvalorizado, tendo dificuldade para me amar.

– Você conversou com ele sobre isso?

– Claro que não, ele nunca deu abertura para tal. Da mesma forma, passei a mesma situação com meu chefe no trabalho. Até meu último dia de vida sentia-me como um profissional medíocre e sem potencial para crescer.

– Sim, entendo. Você agiu da mesma forma nas duas situações. Provavelmente, em outros episódios também. Virou um ciclo. Quando se percebia desvalorizado assim, o que fazia?

– Fugia, escapava. Desde o colégio me escondo sempre que possível e tive poucos amigos. Quanto menos me vissem melhor. E, quando me mostrava, era para criticar outra pessoa ou para me mostrar melhor do que ela. Os defeitos dela escondiam os meus. Assim eu imaginava.

A Entidade percebeu, então, os traços de alguém rejeitado desde a infância, o que só atraiu mais motivos para repelir outros indivíduos. O bate-papo prosseguiu:

– E sua mãe, rejeitava você também?

– Não, ela me tratava bem. Apenas não era presente. O trabalho vinha na frente, assim como meu irmão mais velho e os jantares com os amigos.

– Como você se sentia?

– Como assim? Completamente abandonado, deixado de lado. O que mais doía era a falta de diálogo.

– Compreendo. Em geral, a rejeição é proveniente do genitor do mesmo gênero, como você disse que acontecia com seu pai. Já o abandono, vem do oposto, ou seja, da sua mãe. Fale de quando era mais velho.

– Na adolescência, fui muito dependente de tudo e de todos, como se estivesse carente constantemente. E, se não fosse atendido, era sempre muito dramático.

– Lembra de mais episódios que considera ruins?

– Talvez. Recordo-me que sempre procurei tirar pessoas de situações complicadas. Era uma forma de ser o centro das atenções, mesmo que, na verdade, eu não me importasse com elas.

– Você falou acima que era crítico com as pessoas. Explique melhor.

– Quando criança, meus pais, principalmente minha mãe, demonstravam nojo ou vergonha de mim, como quando espalhei coco pela cama. Eu tinha menos de dois anos e lembro, por mais incrível que pareça, de me chamaram de porco. Eu era uma criança! Este foi somente o primeiro de muitos episódios. Olhando para trás, vejo situações assim me tornaram um ser humano extremamente rigoroso. Por isso, julguei muito todos à minha volta. Como se somente eu fosse o perfeito.

– Realmente esta não era uma boa conduta.

– Ao mesmo tempo, como já disse antes, gostava de ajudar essas pessoas que eu criticava o tempo todo, mesmo que não pelos motivos certos. Contudo, eu era um masoquista, isso sim. Percebo, neste momento, que gostava de ajudar somente para não pensar em mim mesmo e não me valorizar. Era quase uma autotortura. Aliás, já disse que me considero sem valor algum?

– Sim, foi um dos seus primeiros comentários.

– Então, ao não pensar em mim, me machucava ainda mais. Não faz sentido…

– Na verdade, faz sim. Não refletir sobre você foi uma das piores atitudes que pode adotar contra si mesmo. Dessa forma, você não se analisou e permaneceu parado na vida, não evoluiu.

– Acho que entendo. Ouvindo agora parece fácil de perceber.

– Você acha que conseguiria fazer diferente se tentasse novamente?

– Acredito que sim. Como aquele velho clichê, “errando é que se aprende”. Percebo que fui um escapista por ter sido medroso, um homem rígido com meus semelhantes devido a injustiças sofridas, um masoquista comigo mesmo, um carente que sobrecarregava todos à minha volta e um controlador.

– Talvez esteja exagerando, dificilmente um mesmo indivíduo agrega as cinco feridas emocionais da humanidade. Não está sendo um tanto egocêntrico?

Uma risada enorme – e surpreendente – saiu de seus lábios.

– Cinco feridas emocionais?

– Calma, você vai entender daqui um tempo. Este aprendizado fará parte da sua nova vida. Não desperdice essa chance. Lembre-se: pensar em seus semelhantes é essencial, mas não deixar si mesmo de lado, também.

– Obrigado por este encontro e por me ajudar a expressar tantos sentimentos em palavras.

– Agradeça a você.

De repente, tudo ficou branco como uma luz sem fim. Aquele que chegou para a sabatina nunca se lembraria deste papo. Mas, na sua tentativa seguinte, muita coisa foi diferente. Esta história, talvez num capítulo futuro.

As cinco feridas emocionais abordadas por Lise Bourbeau em sua obra mais recente

Rejeição
Quem tem essa ferida cria a máscara do escapista. Ele tenta fugir de situações em que se sente inseguro, com medo de ser novamente rejeitado. Isso faz com que se sinta menos importante que os outros. Seu corpo é estreito, esguio e frágil. Tem olhos pequenos e amedrontados.

Abandono
Quem tem essa ferida cria a máscara do dependente. Carente por atenção, costuma ficar doente com frequência e atrair situações em que precise do apoio dos demais. Corpo sem tônus, curvado. Olhos grandes e tristes.

Humilhação
Quem tem essa ferida cria a máscara do masoquista. Generoso e disposto a ajudar, acaba negligenciando as próprias necessidades, o que lhe causa grande sofrimento. É motivado pelo medo de sentir vergonha. Tem o corpo arredondado, tendendo ao excesso de peso. Seus olhos são arregalados e inocentes.

Traição
Quem tem essa ferida cria a máscara do controlador. Faz de tudo para mostrar que é seguro de si e que tem domínio da situação. Sofre quando as pessoas não correspondem às suas expectativas. Seu corpo exibe força e poder. Os olhos são intensos e sedutores.

Injustiça
Quem tem essa ferida cria a máscara do rígido. Perfeccionista e impaciente, é muito exigente consigo mesmo e com os outros. Busca fazer tudo corretamente, não aceitando qualquer deslize ou flexibilidade. Seu corpo é tenso e aprumado. Tem olhos brilhantes e inquietos.

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