O começo do Brasil a partir de quatro personagens

25 de junho de 2017 | por Filipe Isensee

Os primeiros responsáveis por escrever a história do Brasil – muitas vezes, por linhas tortas ou tortuosas – não eram brasileiros. O país, ainda em seus primeiros anos oficialmente descoberto, era um enigma de verdes e azuis inesgotáveis. Uma terra a ser desbravada e, claro, explorada até mudar de cor. Náufragos, traficantes e degredado, segundo livro da Coleção Brasilis escrito por Eduardo Bueno, avança na narrativa sobre a formação do Brasil. Aqui, um Brasil com poucos brasileiros, um Brasil apto a ser conquistado por aqueles que cruzassem o Atlântico. Muitos o fizeram. Abaixo, você conhece quatro deles, pioneiros, homens que viram, descreveram e traduziram o país.

Vicente Yáñez Pinzón

Os livros de história costumam não dar atenção à trajetória do capitão espanhol. Mas, olha, não se trata de um capitão qualquer. O tal Pinzón, colega de nau de Cristóvão Colombo em 1492, simplesmente descobriu o Brasil. Sim, descobriu o Brasil, com data e tudo: 26 de janeiro de 1500, muitas semanas antes de Cabral, o descobridor oficial, atracar por aqui. Embora a viagem tenha sido bem documentada, resistiu por muito tempo a dúvida sobre o local onde os navios aportaram, se em Orange (atual fronteira entre Brasil e a Guiana Francesa) ou se no cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Os séculos seguintes embrulharam o mistério e a resposta foi dada apenas em 1975: Pinzón pisou primeiro em Mucuripe, em Fortaleza, no Ceará. E você indo passar as férias em Porto Seguro, hein? A passagem pelo país incluiu embate com os índios, visita a atual Jericoacoara e, possivelmente, a primeira experiência dos europeus com a pororoca, encontro das águas do rio com o mar. Sim, o desbravador Pinzón também conheceu o Amazonas.

Américo Vespúcio

Basta dizer que a América foi batizada assim graças a ele, talvez o nome mais reconhecido da lista. As característica do sujeito, contudo, são conflituosas: era culto, rico, presunçoso, arrogante e perseguia uma fama capaz de sobreviver a sua morte. Sabe como ele conseguiu tal feito? Américo nasceu na Itália, mas sua história se entrelaça a do Brasil recém-descoberto após a mudança para a Espanha, em 1491. A viagem rumo ao novo país só aconteceu após uma década, sendo determinante para que seu nome fosse eternizado. Ao que tudo indica, ele desembarcou numa praia do Rio Grande do Norte, onde teria presenciado e, posteriormente relatado numa carta, o ataque dos nativos a um tripulante europeu. Os desdobramentos são muitos, mas a fatia mais saborosa está justamente nos relatos sobre suas viagens  – e a linha que separa firulas e exageros de fatos precisos é completamente embaçada. Uma correspondência sobre essas aventuras, destinada a uma amigo de infância, foi publicada em 1504, encontrando maior repercussão quando transformada em folhetim dois anos depois. “Seu êxito foi tão extraordinário que as terras descobertas por Colombo, e por outros exploradores que o seguiram, passaram a ser chamadas de América”, explica Bueno. Lembra as características da figura? Pois bem. Anos depois de sua morte, ficou provado que ele não foi em ao menos uma das viagens que narra e que seu texto mistura informações tiradas de outras fontes. Não deixa de ser irônico o fato de Vespúcio, origem do nome de um continente tão contrastante, ter sido um charlatão.

Fernando de Noronha

Para muitos, o arquipélago localizado em Pernambuco, de acesso restrito e beleza natural abundante, é um dos paraísos brasileiros. Seu nome vem justamente do explorador e comerciante Fernando de Noronha – ou Fernão de Loronha, como registrado em documentos do século XVI. Ele, supostamente um judeu convertido ao cristianismo, foi um dos que enriqueceu com a venda de pau-brasil, cujo sucesso foi potencializado por um acordo com o rei de Portugal, garantindo-lhe o monopólio do negócio. Em janeiro de 1504, Noronha se tornou donatário de uma bela ilha localizada no meio do oceano Atlântico, que se tornou a primeira capitania hereditária do Brasil e logo passou a ser conhecida pelo nome do seu dono.

Caramuru

 

A história do náufrago português já serviu de inspiração para a minissérie Caramuru – A invenção do Brasil, exibida pela Rede Globo em 2000 e transformada em filme no ano seguinte. Sem dúvida, é uma jornada fascinante, ainda mais levando em conta que muitas informações tratadas como fatos históricos a seu respeito foram extraídas de um poema épico escrito pelo frei José de Santa Rita Durão em 1781. Diogo Álvares Correa, como fora batizado, aparentemente foi o único sobrevivente de um naufrágio ocorrido na Bahia, em 1509 ou 1510. O significado da alcunha tem versões diferentes: “Dragão saído do mar” ou “Homem do trovão”, segundo o frei; “moreia”, um peixe-elétrico que dá choque, como escreveu o historiador Francisco Varnhagen em 1854; para outros pesquisadores, a palavra vem de “caray-muru”, que significa “homem branco molhado”. Casado com Paraguaçu, filha do principal chefe guerreiro da região, Caramuru ocupou um lugar de respeito entre os Tupinambá. É creditado a essa boa relação, aliás, o fato de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil ter decidido instalar na Bahia e fundar, em 1549, a primeira capital do país, Salvador. Ele morreu com quase 70 anos, em outubro de 1557.

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