Originais

22 de junho de 2017 | por Bolt Brasil

No início dos anos 1990, uma ambiciosa analista da CIA chamada Carmen Medina foi para a Europa Ocidental em uma missão de três anos. Quando voltou aos Estados Unidos, descobriu que ter deixado o país a fizera retroceder na carreira. Depois de ficar empacada em várias funções que não condiziam com suas capacidades e aspirações, ela procurou uma forma diferente de dar sua contribuição. Começou a participar de grupos de trabalho sobre o futuro da inteligência.

Ao longo de sua carreira na CIA, Carmen Medina identificara um problema fundamental de comunicação dentro da comunidade de inteligência. O sistema convencional de compartilhamento de informação baseava-se em “relatórios fechados de inteligência”, divulgados uma vez por dia e difíceis de coordenar entre as agências. Os analistas não tinham como compartilhar insights à medida que surgiam. Uma vez que o conhecimento estava em constante evolução, levava muito tempo para que a informação crítica chegasse às mãos certas. Com vidas em jogo e a segurança nacional em questão, cada segundo era importante. Todas as agências produziam os próprios jornais diários, e Medina enxergou a necessidade de haver um sistema radicalmente diferente que permitisse o compartilhamento de atualizações em tempo real entre as agências. Para quebrar a concentração de informação e acelerar a comunicação, propôs algo contracultural e arrojado: em vez de imprimir relatórios em papel, as agências de inteligência deveriam publicar suas descobertas instantaneamente e transmiti-las pelo Intelink, a internet sigilosa da comunidade de inteligência.

Seus colegas foram rápidos em abrir fogo contra a sugestão. Nada parecido jamais tinha sido tentado. A internet, argumentavam, era uma ameaça à segurança nacional. A inteligência era um trabalho clandestino e havia uma boa razão para isso. Com o sistema atual, era possível garantir que os documentos impressos chegassem ao destinatário designado, àquele que precisava ter conhecimento dele. A comunicação eletrônica não parecia segura nesse sentido: se a informação fosse parar nas mãos erradas, todos estariam em perigo.

Medina se recusou a desistir. Se a própria razão de ser daqueles grupos era sondar o futuro, e ela não pudesse dizer verdades aos poderosos ali, onde mais poderia? Tendo testemunhado a maior eficiência que os aparelhos de fax haviam trazido para o compartilhamento de informação, estava convencida de que a revolução digital acabaria sacudindo o mundo da inteligência. Ela defendia uma plataforma de internet que permitisse à CIA trocar informações com outras agências, como FBI e NSA.

Medina continuou a externar suas opiniões, mas ninguém lhe deu ouvidos. Um colega experiente a advertiu: “Tome cuidado com o que você fala nesses grupos. Se for honesta demais e disser o que realmente pensa, isso vai arruinar sua carreira.” Em pouco tempo, até bons amigos começaram a se afastar dela. Por fim, cansada da falta de respeito com que era tratada, Medina explodiu e se envolveu em uma discussão acalorada, o que a forçou a tirar três dias de licença e depois começar a procurar um novo emprego.

Como não encontrou trabalho fora da agência, acabou sendo realocada em um cargo burocrático que a afastava de toda a ação – mais ou menos a única posição que lhe restava na CIA. Manteve-se quieta por algum tempo, mas, três anos depois daquela explosão, Medina decidiu voltar a erguer a voz em defesa de um sistema on-line para que as agências pudessem trocar informações de forma contínua e em tempo real.

Menos de uma década depois, Carmen Medina desempenhou um papel indispensável na criação de uma plataforma chamada Intellipedia, uma Wikipedia interna que permite às agências de inteligência acessar a base de dados uma da outra. Aquilo era tão contrário às normas da CIA que, nas palavras de um observador, “era como ser convocado a pregar o vegetarianismo no Texas”.

Em 2008, a Intellipedia já era um recurso-chave que as agências de inteligência usavam em desafios tão variados quanto proteger as Olimpíadas de Pequim e identificar os terroristas por trás dos atentados de Mumbai. Em poucos anos, o site registrou mais de 500 mil usuários da comunidade de inteligência, acima de 1 milhão de páginas e 630 milhões de visitas – e conquistou a medalha do Serviço à Segurança Interna dos Estados Unidos. “É difícil exagerar a importância do que eles fizeram”, disse um experiente líder da comunidade. “Eles promoveram uma grande transformação quase da noite para o dia e sem verba, depois que outros programas fracassaram em obter esses resultados com milhões de dólares de financiamento.”