Mauricio – A história que não está no gibi

22 de junho de 2017 | por Bolt Brasil

O enorme sucesso da Folhinha me deu uma ótima ideia. E se, em vez de vender apenas tirinhas e histórias, eu também oferecesse um suplemento infantil inteiro para os clientes? Lá por setembro de 1964, eu devia ter uns 150 periódicos na minha listagem postal, a maioria formada por publicações de paróquia, pequenas demais para os suplementos. Mas havia também umas 15 redações de outros estados e cerca de 30 do interior de São Paulo – isso sem falar das dezenas de pequenos jornais que constavam do meu anuário da imprensa e com os quais eu nunca tinha entrado em contato. Era neles que eu concentraria a artilharia.

O produto já estava na cabeça havia alguns meses. Ele se chamaria Jornalzinho da Mônica e sairia aos domingos, como a Folhinha. Os suplementos seriam idênticos, os mesmos para todo mundo. Mas teriam, conforme o gosto do freguês, 8 ou 16 páginas – uma com “divertimentos”, como o jogo dos sete erros, e as restantes com histórias em cores. No pé de algumas páginas, deixei um espaço em branco para que os jornais o preenchessem com publicidade local. Só com essa receita já poderiam pagar pelo meu serviço. O lucro deles viria do provável aumento das vendas.

De início, o material continuaria seguindo pelo correio para os jornais de outros estados ou de cidades do interior distantes de São Paulo. Ao receber as histórias, eles colocavam o cheque do pagamento no correio. Eu descontava na boca do caixa e então, na remessa seguinte de material, mandava o recibo, daqueles comprados em papelaria.

O sistema sempre funcionou bem, mas depender do correio não deixava de ser um risco. Não se tratava mais de uma tirinha, cujo espaço podia ser ocupado por outra tirinha mais antiga ou uma pequena notícia. Seria um suplemento inteiro, que envolvia venda de anúncios, a imagem do jornal e a expectativa dos leitores – levando-se em conta que decepcionar criança é quase um crime.

Para resolver isso, com o tempo eu bolaria um serviço especial para jornais que ficavam a até 300 quilômetros da capital. Os clientes não precisariam se preocupar com nada e eu não corria o risco de o material se extraviar pelo correio ou por uma empresa de transporte. Assim, a partir de 1966, cerca de dois anos depois da criação do Jornalzinho da Mônica, além da criação e da produção, eu também cuidaria da impressão e da entrega em mãos. Pacote completo mesmo.

Quinta-feira era o dia de produzir os desenhos da Folhinha, a nave-mãe da minha frota. Eu levava, e ainda levo, 40 minutos para desenhar os 10 ou 12 quadrinhos de uma história em formato tabloide. Começava a trabalhar nisso depois do almoço e ia até as cinco da tarde. A última era sempre a do Horácio, criada daquela maneira meio mediúnica. Aí, para cumprir o prazo de gráfica, tinha que entregar tudo até as seis da tarde na Folha, que rodaria o suplemento na madrugada, deixando-o pronto para ser encartado no domingo.

Às sextas-feiras eu mal saía do telefone, oferecendo o Jornalzinho da Mônica aos antigos clientes e, mais tarde, a redações com as quais nunca tinha entrado em contato. Era raro encontrar quem nunca tivesse ouvido falar da Folhinha, o que facilitava bastante a venda. Muitos diretores de redação até se empolgavam com a possibilidade de oferecer aos leitores historinhas tão conhecidas e apreciadas.

A cada 10 ligações, eu fechava pelo menos um negócio. A velha caderneta não dava mais conta de controlar tudo. Contratei um gerente para me ajudar na parte financeira. Na tentativa de enxergar melhor a dimensão da clientela, comprei um mapa do Brasil e o afixei atrás da minha mesa. Espetava ali tachinhas coloridas em cada cidade que republicava meus desenhos, uma cor para as tirinhas, outra para histórias de página inteira, mais uma para os suplementos e mais outra para o pacote completo. Em quatro anos, de 1964 a 1967, eu cheguei a ter umas 400 tachinhas ali, espalhadas de norte a sul do país, em cidades como Natal, Alegrete ou Uruguaiana.