Susan Cain e o poder dos jovens introvertidos

14 de junho de 2017 | por Caio Soares

“Vivemos em uma sociedade que espera que as crianças estejam sempre ocupadas”

“Por que você está tão quieta?” Ao longo da vida, Susan Cain sempre ouviu a mesma pergunta. No colégio, era cobrada pelas professoras para falar mais. Em situações sociais na faculdade, frequentava festas e reuniões, mas sempre pensava que um programa mais quieto seria melhor. No entanto, Susan trilhou um caminho diferente. Com o tempo, foi percebendo que o jeito tranquilo de lidar era um grande poder. Ao olhar em volta, percebeu que as grandes contribuições feitas ao mundo – do computador Apple a alguns livros infantis que influenciaram gerações – tinham sido obra de pessoas consideradas introvertidos, que as criaram exatamente por terem um temperamento tranquilo, e não apesar disso. As ideias de Susan se transformaram em um livro de grande sucesso, bestseller do The New York Times e traduzido para 40 idiomas.

À medida que recebia o feedback de seus leitores, percebeu uma demanda para direcionar seu trabalho para uma parcela estratégica de nossa sociedade: os jovens. É aí que surgiu O poder dos quietos para jovens. Focando nos desafios que eles enfrentam na escola, na vida em família, nas atividades extracurriculares e com as amizades, Susan mostra que uma abordagem mais quieta para a vida pode ser um grande poder para os jovens. Em entrevista para o site Your Teen Mag, a autora falou sobre as diferenças entre introvertidos e extrovertidos, a importância do diálogo entre pais e filhos e estratégias para despertar o melhor das crianças.

Susan Cain, autora de O poder dos quietos para jovens

Ser introvertido é a mesma coisa que ser tímido?

Não. A timidez é  relacionada com um medo de ser julgado socialmente. Um adolescente introvertido pode ou não ser tímido; a relação é mais com uma preferência por ambientes quietos com menos estímulos. As experiências internas entre um jovem tímido e um introvertido são completamente diferentes. Como parecem ser a mesma coisa externamente, acabam sendo tratadas culturalmente da mesma maneira. No entanto, se analisarmos as experiências sob a ótica da Psicologia, veremos que são bastante distintas. Por exemplo, quando uma criança não quer ir à uma festa onde todos os amigos estarão. Ela está com medo de alguma situação ou simplesmente não gosta de muita agitação? São coisas completamente diferentes.

Se um pai ou uma mãe é uma pessoa extrovertida, mas seu filho é introvertido, como os pais aprendem a lidar com a situação e apreciar a criança com essas características?

Essa é uma das perguntas mais comuns! É impressionante a quantidade de pais que, ao falar comigo, expressam uma preocupação com o comportamento ou atitudes do filho. Meu trabalho é mostrar para eles que é preciso criar uma consciência de que ser introvertido vai além de uma preferência. O importante é deixar a criança lidar com o próprio tempo de socialização. Todos nós em algum momento precisamos deixar a nossa zona de conforto, mas o segredo está em deixar que tudo aconteça nos próprios termos da criança e pelos motivos certos. Os pais podem tentar conversar de forma honesta com os filhos perguntando sobre como eles querem aproveitar o tempo livre. Vivemos em uma sociedade superprogramada que espera que as crianças estejam sempre ocupadas com atividades. Mas algumas crianças não gostam disso. É importante entender que na grande maioria das situações o nível de energia delas é diferente, ou então aceitar que elas gostam de apenas relaxar no tempo livre.

O que você quer dizer com a ideia de que a introversão vai além de preferências?

É uma questão inata. Introvertidos e extrovertidos possuem diferentes sistemas nervosos. Logo após o nascimento, com quatro dias de vida, os recém-nascidos reagem de maneira diferentes à estímulos externos. Bebês introvertidos têm sistemas nervosos que são mais reativos. Essa característica é realçada ao longo da vida. Em um ambiente como um aeroporto ou uma festa repleta de convidados, o sistema nervoso de uma pessoa introvertida é “inundado” com estímulos, com o corpo pedindo por um lugar mais tranquilo. Para um extrovertido, a reação é diferente, já que o sistema nervoso não é tão reativo.

A nossa sociedade parece ser moldada sob a ideia de que é melhor ser uma pessoa extrovertida. Você concorda?

Absolutamente, e aqui está um exemplo que confirma essa afirmação. Certa vez, uma mãe me contou que, quando foi busca sua filha na escola, todas as meninas estavam jogando basquete juntas, mas a filha estava no outro canto, jogando sozinha. Para essa mãe, a situação a deixou bastante angustiada. Ela não conseguia entender porque sua filha não estava junto das colegas, já que, para ela, seria uma alegria estar com as amigas se divertindo. Ela assumiu que sua filha estava triste e, para evitar rever a cena, preferiu deixar de buscá-la por um tempo. Depois de começar a aprender sobre crianças introvertidas e conversar com a filha sem nenhum tipo de julgamento, ela entendeu. “Fico o tempo inteiro com minhas amigas durante as aulas. No fim do dia, eu só quero ficar sozinha!”, a filha explicava pacientemente. Quanto mais conversava com a filha, mais a mãe entendia que tudo estava bem. De quebra, conquistou a confiança da jovem.

A cultura ocidental preza a eterna necessidade de ser carismático em situações sociais ou profissionais. É uma responsabilidade dos pais ensinar aos filhos introvertidos essas habilidades?

Sim, mas é muito importante que sejam ensinadas da maneira correta. O primeiro passo é apreciar e respeitar uma criança ou adolescente introvertido do jeito que ele é. Quanto mais uma criança se sentir responsável por suas atitudes e não se sentir pressionada, mais confiança terá em uma situação desafiadora como uma entrevista de emprego ou uma reunião de amigos. Quando um jovem percebe que possui o total apoio e respeito dos pais, ele se sentirá confortável para ouvir conselhos e dicas.

A adolescência é considerada um período turbulento para os jovens, com novos estímulos sociais e pessoais que podem moldar a vida. Que estratégias os pais podem sugerir aos filhos para lidar com essas situações?

É simples e até clichê, mas o simples ato de sorrir pode ser determinante em uma situação dessas.  O sorriso demonstra que o jovem está aberto e confortável, além de sinalizar para o corpo que é importante relaxar. Tentar sorrir em momentos de desconforto é essencial. Reconhecer o que seu corpo faz quando você se sente relaxado, e lembrar dessa sensação sempre que possível. A postura corporal é um trunfo de ouro nessas situações!

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