O retrato feminino do Brasil

14 de junho de 2017 | por Filipe Isensee

Embora já estivessem em bocas e teclas por aí, empoderamento, empatia e sororidade nunca foram tão faladas, escritas, pensadas, lidas e revistas quanto agora. O eco dessas antigas palavras ganhou relevo, virou contexto e ferramenta para discutir outros temas e ações num mundo cuja perspectiva ainda sobrepõe o masculino ao feminino. À mulher, por defeito imposto ao gênero, restou agradecer a graça divina de ter vindo de uma malfadada costela de homem. Felizmente, há quem siga outra rota, subvertendo o cabresto e as rédeas da domesticação. A busca por essas personagens de desvio guiou a minha leitura, entre as muitas possíveis, de 101 brasileiros que fizeram história, de Jorge Caldeira.

A matemática é injusta aqui também: há substancialmente menos mulheres contempladas do que homens, talvez reflexo de uma negligência histórica. Curiosamente, boa parte delas foram retratadas em filmes, peças e novelas, reforçando a aura de mito. Caso da emblemática Xica da Silva (1732-1796). Foi Zezé Motta quem personificou primeiro a presença da escrava alforriada no imaginário popular quando o filme homônimo foi lançado em 1976 – duas décadas depois, Taís Araújo ganhou projeção nacional com o papel. O relacionamento público dela com João Fernandes Oliveira – homem branco e contratador de diamantes – é considerado uma raridade para a época. “Xica passa a conviver com as autoridades e os ricos locais, ainda que João não oficialize a união. Nessa situação, os filhos do casal também recebem a melhor educação possível na região”, escreve Caldeira. Como a ficção tratou de acentuar a carga erótica associada a esta mulher negra, é preciso ter o cuidado de não reduzi-la a um fetiche ambulante, ignorando suas muitas camadas.

Carlota Joaquina

A observação, aliás, vale para qualquer figura retratada. Os fios da arte e da realidade nem sempre são correspondentes. A Carlota Joaquina (1775-1830) vivida com brilho por Marieta Severo no filme de Carla Camurati lançado em 1995 é um vulto cheio de cores da figura real, também presente no livro – “orgulhosa, detesta conceder aos tempos revolucionário”, pontua o escritor sobre a reacionária. As minisséries A casa das sete mulheres (2003) e Um só coração (2004), ambas exibidas na Globo, ajudaram a popularizar a guerreira Anita Garibaldi (1821-1849) e a pintora modernista Tarsila do Amaral (1886-1973), cujo Abaporu se mantém como expressão genuína da arte brasileira e de interesse crescente incontestável.

Composto por uma galeria de personalidades que ganharam vida no corpo de atores e atrizes, o livro termina justamente com a brasileira que melhor exemplifica o delicado exercício de se tornar outra. E Fernanda Montenegro – a última dos 101 – foi e é muitas. Numa das suas mais recentes incursões no teatro, ela interpretou a pensadora francesa Simone de Beauvoir. Em 2009, quando o espetáculo estreou, empoderamento, empatia e sororidade ainda não haviam se tornado palavras-irmãs, o que ressalta a sensibilidade da atriz, hoje com 87 anos. Sozinha no palco, Fernanda foi porta-voz de um texto que vasculha a consciência feminina. O nome da peça se encaixa com precisão na luta histórica por igualdade: “Viver sem tempos mortos”. Que assim seja:

“A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. (…) O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que consegui fazê-lo. Vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos”.

Fernanda Montenegro

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