Muito mais Mauricio de Sousa [Parte 1]

13 de junho de 2017 | por Caio Soares

Considerado o maior desenhista brasileiro e uma das figuras mais importantes da ilustração mundial, Mauricio de Sousa trilhou uma trajetória única ao longo dos 81 anos de vida. O menino que saiu do interior de São Paulo para buscar o sonho de ser ilustrador possui diversas histórias e curiosidades nas seis décadas que atua como artista profissional. Separamos algumas curiosidades sobre a carreira de Mauricio, além de histórias reveladoras sobre o surgimento e características de alguns dos personagens mais icônicos da Turma da Mônica.

1- Mauricio de Sousa entrou no mundo do jornalismo por acaso. Aos 19 anos, o então adolescente foi à sede da Folha da Manhã (jornal favorito de seu pai) para tentar a sorte com suas ilustrações. Após ouvir um sonoro ‘não’ do diretor de arte do jornal, saiu cabisbaixo pela redação e chamou a atenção de Mário Cartaxo, que ofereceu ao jovem uma vaga de copidesque no jornal e depois uma vaga para a seção policial da publicação. Mauricio trabalhou cinco anos na Folha da Manhã como repórter e ilustrador, entre 1954 e 1959.

Mauricio fazia questão de se vestir como o personagem Dick Tracy, detetive dos quadrinhos de quem era fã, no período em que trabalhou como repórter policial.

2- A inspiração para a criação do personagem Penadinho veio dos saraus musicais com chorinhos e sucessos da Rádio Nacional promovido por Antonio, pai de Maurício, e seus amigos na funerária que ficava na esquina da casa da família. “Ali conheci os instrumentos e aprendi a batucar nos caixões e a cantar no tom certo, ao mesmo tempo que perdi medo de caixão. Como isso foi uma coisa boa, anos mais tarde quis que outras crianças também perdessem medo de assombração. Por isso, criei o Penadinho, fantasma que só faz o bem e é amigo de todo mundo”. A inspiração para o Chico Bento veio de um personagem mexicano chamado O Gordo, homem simples que não gostava de trabalhar. E Horácio foi inspirado em um personagem criado para um cartaz do baile de formatura da oitava série do colégio cujo tema seria a Pré-História.

Penadinho

3- O primeiro contato de Mauricio com os gibis foi a caminho da escola em São Paulo, quando viu no lixo da banca dono da banca de jornal de seu Topázio um exemplar de O Guri, publicado pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Mauricio pediu ao pai que começasse a comprar O Globo Juvenil e Gibi, ambos publicados por Roberto Marinho. Mauricio foi alfabetizado aos cinco anos com a ajuda da mãe e é claro, das histórias em quadrinhos. A primeira história lida sozinha por Mauricio foi Mandrake e as Amazonas, exemplar guardado com muito carinho até hoje.

4- Mauricio aprendeu a desenhar reproduzindo personagens de gibis famosos como o Reizinho, Mandrake e Ferdinando. O garoto também fazia caricaturas de colegas e professores de colégio. A primeira revistinha criada por Mauricio foi quando ele tinha 10 anos e se chamava Quartinho, porque circulava entre os alunos da quarta série. Aos 14 anos, ele já ganhava dinheiro suficiente com desenhos encomendados para ajudar com os gastos da família. Somando locuções, ilustrações e desenhos, Mauricio ganhava mais do que o pai na barbearia e na rádio.

5- A primeira tirinha publicada por Maurício como ilustrador foi sobre um garoto e um cachorro que se tornariam personagens clássicos da Turma da Mônica. O cachorro Bidu foi inspirado em Cuíca, vira-lata da família, e um schnauzer de uma vizinha de sua avó. Já o menino mais tarde seria batizado como Franjinha. A primeira tirinha foi publicada na edição de 18 de julho de 1959 da Folha da Tarde e começou a sair diariamente dois meses depois da estreia.

6- O restante da turma foi aparecendo aos poucos. Na Editora Continental, Mauricio assinava 40 páginas mensais com um núcleo de personagens (Franjinha, Bidu, Titi, Manezinho, Jeremias e Chaveco – ainda com ch). No segundo número da Bidu, surgiu o Cebolinha, inspirado em um amigo de infância de Mogi com cabelo espetado e que falava errado. Já a cor azulada de Bidu apareceu graças a um erro da gráfica na hora de colocar as tintas. Maurício adotou o erro.

7- Na número 5 da revista Bidu, pela primeira vez alguém da família de Maurício foi transformado em personagem. Baseada em Mariangela, a filha primogênita, Mauricio criou uma irmã para o Cebolinha, a Maria Cebolinha. Atualmente, 10 personagens da Turma da Mônica são inspirados nos filhos do desenhista.

Mauricio com os filhos mais velhos: Mariangela, Mônica, Magali e Mauricio Spada.

8- Após um complicado período de boicote da imprensa paulistana por seu envolvimento com sindicatos e associações de desenhistas, Maurício foi recontratado pela Folha de S.Paulo em 1963. Sob a direção de Octavio Frias de Oliveira, as tirinhas saíam no novo suplemento infantil chamado Folhinha de S.Paulo. Precisando de novos personagens, Mauricio se inspirou na pequena filha Mônica, que arrastava um coelho amarelo de pelúcia pela casa, para criar em março de 63 sua personagem mais famosa. Foi o ano da virada para Mauricio, que criou a Magali (inspirada em sua filha caçula) e o Cascão (inspirado em um amigo de infância que morava em um bairro sem água encanada), além de desenvolver e reformular outros personagens como Penadinho, Astronauta, Hiro e Zé da Roça.

9- O Jotalhão surgiu a pedido de Alberto Dines, diretor do Jornal do Brasil na década de 1960. Espécie de mascote do caderno de classificados do JB, o elefante era rosa, mas o projeto não decolou. Posteriormente, o Jotalhão seria publicado na Folha e na Folhinha, com a consagrada cor verde. Anos depois, o elefante seria garoto propaganda da Cica, considerada a maior multiprodutora agrícola brasileira e que foi extinta em 2003.

10- O Horácio segue sendo até hoje o único personagem desenhado exclusivamente por Maurício. “É o único personagem que pode ser considerado meu alter ego. “Criar suas histórias é quase uma experiência mediúnica. Jamais precisei pensar num enredo, trama ou coisa parecida. Eu simplesmente sento, olho o papel e a história sai num jorro, com início, meio e fim. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, fiz algumas tentativas para que outras pessoas tocassem as histórias dele. Não deu certo. Por isso, até hoje, se você vir uma história do Horácio, pode ter certeza de que fui eu quem criei”.

 

Leia também: Muito mais Mauricio de Sousa [Parte 2]

TAGS: