Uma luz de esperança no meio da escuridão

6 de junho de 2017 | por André Sequeira

Conforme pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 65% dos entrevistados dizem ser a corrupção o principal problema do Brasil, atrás de assuntos de extrema necessidade, como saúde e segurança. Apesar da desonestidade crônica estar presente na sociedade brasileira há séculos, foi somente com a Lava-Jato que tudo ficou mais evidente.

A roubalheira no setor público é nociva por diversos motivos, mas, principalmente, pelo fato de colocar nos bolsos de políticos e empresários recursos para investimentos em diversos setores já deficitários, como Educação e Previdência. Nós que já vivemos num país em situação financeira caótica, estamos cada vez mais indignados com o que vem sendo noticiado na mídia nos últimos tempos.

Tudo piorou com o início da operação Lava-Jato há mais de três anos, quando começaram a surgir centenas de fatos a todo minuto. A cada dia, um senador é preso, um deputado é denunciado, um vereador é interrogado. Para piorar, dos seis presidentes brasileiros que assumiram o poder após a ditadura militar, 100% foram citados em denúncias ou delações premiadas. Além disso, dinheiro desviado ilegalmente é encontrado e devolvido como fitas VHS nas extintas locadoras. Chegamos ao ponto de não achar estarrecedor um roubo de menos de 10 milhões.

Os tempos atuais são tão nebulosos que empresas de fachadas tornam-se conhecidas, juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) viram celebridades, cargos vagos de ministros de Estado são debatidos em rodas de bar e delações premiadas são avaliadas com mais atenção do que as convocações da Seleção Brasileira de Futebol.

Na tentativa de explicar este momento conturbado de políticos acusados pelos mais variados crimes, de empresas realizando acordos milionários de leniência e de quantias enormes de dinheiro surrupiado, alguns livros têm sido publicados, com destaque para Lava-Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladimir Netto.

Agora, porém, chega ao mercado uma obra diferente, aquela que revela detalhes cruciais da operação organizada do Ministério Público Federal. Tudo narrado por Deltan Dallagnol, o procurador que ganhou notoriedade por coordenar a força-tarefa que investiga os crimes de corrupção oriundos na Petrobrás.

Deltan Dallagnol – procurador da república

Em A luta contra a corrupção, o autor fala sobre sua vida pessoal, como casamento, educação em Harvard, concursos públicos e desafios da profissão. Não como um diário, mas como exemplos ilustrativos dos alicerces que originaram este jurista competente e indignado com os prejuízos sofridos pela população brasileira em função da desonestidade endêmica existente. Para quem tem dúvida, este não é um livro frio e didático, mas verdadeiro, analítico e que apresenta um conjunto de informações necessárias para que todos nós possamos compreender o que ocorre neste momento crucial do país.

Dallagnol sempre foi uma pessoa obstinada. Desde jovem, quando estudava muito e em todas as horas vagas, até o presente, ao analisar casos de operações similares à Lava-Jato de sucesso e de fracasso ao redor do planeta, ele sempre procurou dedicar-se ao máximo a suas tarefas. Até por isso, resolveu ser Procurador da República e ajudar da melhor forma a desassistida população brasileira. Para quem não está familiarizado com o nome, procurador é um fiscal da lei, aquele que pode entrar com ações e conduzir investigações, como a que vem sendo feita com tanto destaque.

Hoje em dia, este protagonista do cenário brasileiro atual é tido como alguém duro e sem piedade. Lendo esta história, o leitor verá que, na verdade, ele é um cara doce, família e que gosta de passar o tempo divertindo-se ao lado dos amigos. O que é certo é sua disposição para colocar o maior número de bandidos de colarinho branco atrás das grades. Ao longos dos anos ele vem lutando contra os obstáculos gigantescos existentes no sistema brasileiro de Justiça Criminal e que, quase sempre, asseguram a impunidade em crimes do gênero. Segundo Dallagnol, “o sistema é tão bem-feito para não funcionar que a Operação Lava-Jato é uma exceção que confirma a regra.”

Três exemplos famosos que comprovam o que foi dito acima – em todos Dalton esteve presente: caso Banestado, que teve 1,9% de envolvidos condenados; caso dos funcionários fantasmas da Assembleia Legislativa do Paraná; caso de fraudes homéricas do Grupo Sundown. A luta para que algo parecido não ocorra dessa vez é o que faz este competente procurador ir trabalhar diariamente e não desistir nem frente ao maior desafio. Como ele mesmo diz, algo como Davi contra Golias.

A luta contra a corrupção é um sopro de esperança neste cenário sombrio em que vivemos. Ao acompanhar as notícias na mídia, temos – e com razão – , a vontade de desistir. Não deixe este sentimento perdurar, pois ainda existem pessoas de bem e competentes que estão trabalhando – e muito – para que o Brasil seja um país melhor no futuro. Uma dessas pessoas é Deltan Dallagnol.

“Apesar do contra-ataque do sistema corrupto, continuo acreditando que o Brasil tem saída. O que você tem nas mãos é um convite para percorrer uma jornada contra a corrupção que está apenas começando. Cabe a nós, juntos, escrever o desfecho desta história.”

 

Leitura recomendada:

Lava Jato, de Vladimir Netto

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