O menino de 81 anos que nunca desistiu

5 de junho de 2017 | por Caio Soares

São Paulo, 1954. Um jovem ilustrador chega à redação do jornal preferido do pai em busca de um emprego e, ao mostrar suas produções para o diretor de arte da empresa, recebe uma resposta seca: “Desista, menino. Desenho não dá dinheiro nem futuro para ninguém. Vá fazer outra coisa da vida.” Mais de seis décadas depois, o menino claramente não desistiu. Aos 81 anos, Mauricio de Sousa é dono de um império dos quadrinhos liderado pela Turma da Mônica, publicada em mais de 50 países e joia de um negócio milionário, com mais de 2.000 produtos licenciados num mercado estimado em 2,5 bilhões de reais por ano.

A história de Mauricio mostra a trajetória de um homem simples e apaixonado por histórias em quadrinhos, filho de um inquieto empreendedor e uma compenetrada moça do campo, que deixa o interior de São Paulo em busca de um sonho: mostrar o seu trabalho para o maior número possível de pessoas. No início do livro, vemos a entrada por acaso de Mauricio no mundo do jornalismo, a luta para um espaço na redação da Folha da Manhã e a complicada relação entre ideologia, o meio artístico e o conturbado cenário político do começo da década de 1960 (Maurício chegou a entrar em uma lista negra dos jornais de São Paulo pelo seu envolvimento com a Adesp – Associação de Desenhistas de São Paulo). O banimento forçou o desenhista a criar uma syndicate (nome dado nos EUA para representantes e distribuidores de material editorial) de um homem só, levando seus clichés do Cebolinha, Bidu e Piteco para as redações de jornais do interior de São Paulo. Era apenas o começo de uma trajetória marcada pela ousadia, a vanguarda e a ambição de ter uma identidade própria que deixe uma marca no mundo.

Aos 26 anos, desenhando para a revista Bidu.

O desenhista nunca negou que o americano Walt Disney foi sua maior fonte de inspiração. Aos moldes do criador de Mickey Mouse, Mauricio idealizou nos anos 1970 um complexo e ousado projeto em diferentes frentes, com ações de propaganda nas ruas de São Paulo, criação de lojas físicas e parques temáticos, peças de teatro, filmes publicitários e longas metragens, tudo isso anos antes do renascimento da Disney na década de 1990. É claro que a trajetória de Mauricio não é só de glórias. Em determinado momento do livro, descobrimos detalhes reveladores sobre o delicado período de imbróglio judicial com a TV Globo no início dos anos 2000. Parceira em uma megaprojeto que envolvia animações, um programa de TV com Mônica como protagonista, um longa metragem e a administração do parque temático da Turma na Zona Oeste do Rio, a emissora carioca falhou em cumprir com as promessas de contrato, rendendo anos de processos e brigas na Justiça. No mesmo período, a alta do dólar combinada com outro imbróglio, desta vez com Silvio Eid, administrador do parque da Mônica original em São Paulo, quase provocaram a quebra da MSP.

Ler a biografia de Mauricio de Sousa é mergulhar de cabeça no surgimento e consolidação do mercado nacional de histórias em quadrinhos. Acompanhamos as disputas entre Adolfo Aizen e Roberto Marinho no começo dos anos 1930, passamos pela explosão de popularidade das revistinhas da Turma da Mônica com a Abril em 1970 e 1980, alcançando uma rodagem total de 1 milhão de exemplares por mês, até a ida dos personagens para a Editora Globo em meados da década de 1980, com um ápice de tiragens de 6.3 milhões de exemplares vendidos num único mês, um recorde absoluto. Apesar de ser um exemplo de gestor sempre atento às negociações com as grandes figuras do mercado editorial nacional, Mauricio confessa que não se preocupava muito com as questões financeiras de seus produtos licenciados para fora do país (as revistinhas chegaram até a Indonésia). Para ele, o importante era alcançar lugares onde nenhum artista brasileiro havia chegado antes.

Mauricio e Osamu Tezuka, cartunista japonês considerado o pai do mangá

Outra característica marcante da trajetória do ilustrador é a presença da família em momentos-chave da história da MSP. Desde o pai, “empresário” de Mauricio enquanto criança e que ocuparia outros cargos no estúdio ao longo das décadas, passando pelas filhas consagradas nas tirinhas, o surgimento de Alice Takeda é fundamental para a consolidação da empresa. Contratada pelo pai de Mauricio para fazer parte do departamento de criação, a desenhista foi crescendo dentro da empresa, tornou-se companheira de Mauricio e atualmente é diretora de arte da MSP e responsável pelo desenvolvimento da Turma da Mônica Jovem.

Aos 81 anos, Mauricio de Sousa conquistou tudo o que desejava. Humilde, batalhador e sonhador, o garoto de Santa Isabel que se apresentava em programas de calouros na rádio em Mogi das Cruzes e presenteava amigos e professores com suas ilustrações nunca perdeu a capacidade de encantar as pessoas com seu traço simples e repleto de dedicação, esforço e muito estudo. Com uma surpreendente e encantadora humildade, Mauricio garante em sua biografia que o sucesso é fruto de muita força de vontade, ideias e sonhos improváveis.

“Não mudei o mundo nenhuma vez. Mas, à minha maneira, acho que o melhorei um pouquinho ao gerar bons momentos, diversão e entretenimento a milhões de brasileirinhos. Raros são os autores, no Brasil e no exterior, que podem dizer que foram lidos com o mesmo prazer por avós, filhos e netos. Ou que carregam na bagagem a honra e o privilégio de que suas criações, com gibis ou livrinhos agindo como cartilhas informais, ensinaram pelo menos três ou quatro gerações a ler – disparado, meu maior orgulho. Em última instância, sou um sobrevivente, um homem que começou do nada, realizou seu sonho e não quer desistir dele de jeito nenhum”.

Obrigado por não ter desistido, Mauricio.

TAGS: