Memórias de um companheiro: na literatura e no cinema

30 de maio de 2017 | por Filipe Isensee

Lembro-me de descer correndo as escadas da casa, de abrir a porta da garagem, de fechar às pressas a porta da garagem, de olhar o fundo da Kombi esverdeada e ver ali, meio embrulhado num saco, o homem e a cara larga do homem. Dentro da Kombi as pessoas sorriam discretamente, orgulhosas. Encostei-me um pouco na parede e disse em voz alta: “Meu Deus, sequestramos o embaixador dos Estados Unidos”. (Trecho do livro O que é isso, companheiro?)

Para compreender melhor o impacto que determinado episódio histórico provocou é necessário muitas vezes se embrenhar na produção cultural de um país. Nela reside a digestão criativa das memórias (as vividas e as inventadas). Pela lente das artes é certo intuir que o Brasil ainda não sepultou a ditadura, por exemplo. Talvez os generais estejam mortos ou tombados e os torturadores soltos ou esquecidos, mas as feridas resistiram tristemente abertas. O regime militar é um pesadelo cujo bafo amargo ainda se faz presente – e o fato de haver defensores e saudosistas desse período torna o espanto incessante. Enquanto o Vietnã, o ataque terrorista de 2001 e, mais recentemente, a guerra do Iraque perturbam os Estados Unidos (e Hollywood dá essa medida ano após ano), o Brasil e outros países da América Latina ainda se esforçam para ver a luz do dia dentro dos porões escuros onde muito se perdeu.

Escrito por Fernando Gabeira em 1979, após uma década de exílio, O que é isso, companheiro? é um desses registros que se tornaram, não por acaso, documentos históricos sobre a ditadura. Embora o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick seja seu ápice narrativo, o livro é mais uma reflexão política de um jovem guerrilheiro do que uma tentativa de thriller literário. O narrador em primeira pessoa reforça o ponto de vista: trata-se de um relato de um jornalista que envereda pela luta armada. Para se ter ideia, quando o embaixador é mencionado pela primeira vez, mais de 60 páginas já foram deixadas para trás. E somente no penúltimo capítulo, com a primeira centena de páginas escritas, o sequestro é destrinchado. Essa perspectiva é fundamental para entender a ruptura feita pela adaptação cinematográfica lançada há 20 anos.

O filme dirigido por Bruno Barreto e roteirizado por Leopoldo Serran se consagrou por competir no renomado Festival de Berlim em 1997 e, no ano seguinte, receber uma indicação ao Oscar. Mas a repercussão não apaga os pontos mal calculados da obra e seus méritos. Revi O que é isso, companheiro? recentemente e não pude evitar estranhamentos que me escaparam das primeiras vezes, o mais crucial deles envolve Henrique, o torturador vivido por Marco Ricca. Numa conversa com a mulher, ele diz: “Você pensa que faço isso para quê, por prazer? Por que quero essa glória no meu currículo?”. E adiante, ajoelhado próximo da cama do casal, conclui sobre os prisioneiros: “A maioria deles são crianças inocentes e cheias de sonhos. Apenas crianças usadas por uma escória perigosa. E se essa escória chegar ao poder, não haverá apenas tortura, mas fuzilamento sumário”. A cena, bem como outras muitas, não estão presentes no livro.

Embora a tentativa pareça ser a de complexificar o personagem, o resultado é questionável, levando em conta que essa suposta crise de consciência jamais proporciona uma reflexão ou uma mudança, e camufla o fato de a tortura fazer parte de uma engrenagem legitimada pelo Estado. Por sua vez, o líder guerrilheiro (Jonas, interpretado por Matheus Nachtergaele) é retratado como alguém destituído de sensibilidade. A busca por ampliar o ponto de vista da história – na literatura, concentrada numa única voz – acaba por esvaziar as camadas dos seus muitos personagens. Do ponto de vista da adaptação, é uma guinada, já que transfere ao embaixador Elbrick o fio condutor da narrativa. Já nos 18 minutos, o personagem do ator Pedro Cardoso (Paulo, o Gabeira da ficção) sugere o sequestro como alternativa de ação ao grupo MR-8.

A transposição da literatura para o cinema é um assunto fascinante, capaz de engatilhar discussões inesgotáveis entre leitores e espectadores. Há quem considere a fidelidade ao material original como essencial e há os que encaram a obra adaptada apenas como ponto de partida e inspiração inicial. Se A hora da estrela (dirigido por Suzana Amaral) e Lavoura arcaica (dirigido por Luiz Fernando Carvalho) seguiram o primeiro caminho, o filme de Bruno Barreto acolheu a segunda opção, mas, por vezes, parece ter se perdido ao tentar seguir a cartilha dos suspenses cinematográficos, sem se ater ao aspecto histórico tão delicado. Não me parece ter envelhecido bem, enquanto as palavras de Gabeira ainda conseguem apreender um momento ainda vivo, muito vivo, da cambaleante democracia brasileira.

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