Dois monges, um escorpião e a natureza de cada um

30 de maio de 2017 | por Alice Dias

Numa tarde, dois monges descansavam à beira de um riacho. De repente, o monge mais velho viu um escorpião cair na água e imediatamente estendeu a mão para salvá-lo. Assim que o monge o tirou da água, o escorpião deu-lhe uma dolorosa ferroada.
Passados alguns minutos, o escorpião caiu novamente no rio. Mais uma vez, o monge colocou a mão na água fria e salvou o animal. O escorpião deu-lhe uma nova ferroada.
Sem compreender a atitude do amigo, o monge mais jovem perguntou:
– Por que você continua a tirá-lo da água, quando sabe que a natureza do escorpião é picar?
O monge mais velho simplesmente respondeu:
– Porque a minha natureza é salvar.

Essa é uma antiga fábula budista muito citada em livros de espiritualidade. Toda vez que a leio, no entanto, ela me toca como se fosse a primeira vez. E sempre me faz pensar na facilidade com que mudamos a nossa natureza por causa da atitude das outras pessoas.

O comportamento do outro não deveria mudar a essência de quem somos. Mas a verdade é que fazemos isso com tanta frequência que, pouco a pouco, vamos nos transformando em pessoas diferentes.

Já trabalhei em diversos livros que tratavam desse assunto, todos com abordagens bem distintas. Mas um deles se tornou meu xodó, aquele que indico para todo mundo que me diz que anda se sentindo perdido ou estressado: Atenção plena, escrito por Mark Williams e Denny Penman.

Mas ele não é um livro sobre administração do estresse – é um livro sobre administração de si mesmo.

De uma maneira bastante didática, os autores ensinam como manter o autocontrole diante das situações que costumam nos tirar do sério. Eles afirmam que, com o tempo, perdemos a capacidade de filtrar os estímulos estressantes, e qualquer contratempo toma uma proporção gigantesca. Pode ser o transito engarrafado, uma fila demorada, uma resposta grosseira a uma pergunta inocente – estamos sempre tão tensos que partimos para o ataque sem pensar duas vezes.

Precisamos aprender a encerrar esse ciclo de agressividade e reencontrar o equilíbrio interno. Acredite, não é tão difícil quanto parece. O livro traz uma série de exercícios de respiração e técnicas de meditação para nos ajudar nesse processo. Os resultados são impressionantes.

Para mim, a mensagem mais importante do livro é: você não pode controlar as situações nem o comportamento das outras pessoas. Mas pode controlar a sua reação em relação a elas.

E quando a sua reação muda, tudo muda – e aí não importa mais se uma pessoa foi grosseira, se o motorista fez besteira no carro à sua frente, se o leite derramou de novo, se o trânsito está parado, se seu chefe foi injusto mais uma vez, se o garçom demorou a trazer seu prato.

Controlar suas reações – evitando explosões desnecessárias, brigas inúteis, agressões gratuitas – significa, em última instância, ser fiel à sua natureza.

E, para isso, não é necessário alcançar nenhum nível avançado de desenvolvimento espiritual: basta não se deixar afetar pelo fluxo de emoções negativas presentes no dia a dia. Basta respirar fundo e saber que as coisas simplesmente são como são. Basta saber que o mundo não pode mudar quem você é – seja você monge ou escorpião.

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