O nascimento de Rogéria: como Astolfo Barroso Pinto encontrou a personagem da sua vida

22 de maio de 2017 | por Filipe Isensee

Rogéria sempre foi uma excelente frasista, com tiradas tão bem-humoradas quanto desconcertantes. Natural que sua biografia reservasse um espaço para elas. O que “Rogéria – Uma mulher e mais um pouco” traz de mais saboroso, contudo, é a chance de conhecer o menino de alma feminina em busca de uma personagem para vestir e viver.  Desatando os nós da rígida arquitetura masculina, a artista improvavelmente foi parida por alguém do sexo  oposto: Astolfo – ou Tofinho, entre os íntimos -, incansável em sua luta quixotesca por autenticidade. Ser autêntica, como defende a personagem Agrado numa das cenas do filme “Tudo sobre minha mãe” (1999),  é aproximar-se cada vez mais daquilo que sonhou para si. Rogéria sempre quis ser aceita. Sendo aceita, amada. Autoproclamada “travesti da família brasileira”, ela – e o ele que convive com ela – goza plenamente dessa certeza.

A raiz do amor é a mãe, Eloah. “Tive a maior mãe do mundo e nunca sofri bullying. Toda vez que aconteceu alguma coisa comigo foi porque eu quis. Minha mãe foi uma mulher tão maravilhosa que nunca teve vergonha de mim”, conta Rogéria, cujo comportamento na infância já era motivo de estranhamento entre parentes e amigos. Tofinho não gostava de brincar de bonecas – uma contradição ao senso comum sobre gays – mas se divertia ao descer escadas  puxando um pano, como se trajasse um vestido longo. Gostava também de fazer a Cleópatra e, “erguida numa espécie de liteira improvisada”, dava ordens a seus súditos. “Quando me transformava na rainha Cleópatra, um menino bem lourinho sempre passava a mão nas minhas coxas, mas eu não falava nada, porque ele estava sendo discreto”, recorda.

O despertar sexual pontua o crescimento de Tofinho. O menino é de uma época em que qualquer desvio sexual era malvisto e a discussão sobre identidades de gênero não existia. Ainda assim, conseguiu driblar os carcereiros da vida alheia para viver a sua, entre desejos e descobertas. Lá pelos 12 anos, começou a se masturbar: “Fiquei viciado”, lembra. Depois teve um caso com um vizinho boxeador – um encontro que povoa sua imaginação até hoje –  e, aos 14, vestiu-se de mulher pela primeira vez, ainda sem usar maquiagem e peruca. Apenas “um maiô Catalina preto, uma saia amarela e um chapeuzinho para disfarçar o cabelo curto”. Era dia de Carnaval. Flagrado pela tia, Astolfo levou uma bronca da mãe, preocupada com o fato de o filho deixar-se ser visto. A primeira transa rolou aos 15 e foi traumática: “Não tive prazer nenhum. Fiquei machucado demais, mas pensava estar apaixonado”, ressalta no livro. Nessa mesma época, apaixonou-se por Marilyn Monroe e decidiu ser ela, abrindo uma generosa fenda para o nascimento de Rogéria.

Quando começou a frequentar a noite da Cinelândia, tentou ser Karina Monroe e Erika Von Strausberg, mas nenhuma delas vingou. A origem do nome consagrado é dividida entre duas etapas. Primeiro, deixou de ser Astolfo para ser Rogério. Isso aconteceu quando trabalhava como maquiador na TV Rio, e Zélia Hoffman (atriz de um dos quadros do programa de Chico Anysio) o apelidou dessa maneira porque considerava Astolfo formal demais. A mudança para o feminino ocorreu tempo depois durante um concurso de fantasias. Vestido de Dama da Noite, ele se destacou, sendo acolhido pelo público. Quando o locutor do evento o apresentou como “Rogério, maquiador da TV Rio”, a plateia começou a gritar: “Rogéria, Rogéria”. “Quer dizer, meu nome artístico foi dado pelo público, melhor batismo não há”, rememora.   

A partir daí a história da artista tomou outro rumo. Ela deixou o trabalho na TV Rio, enveredou pela vida noturna da cidade, viajou para a Europa, recusou a cirurgia de mudança de sexo, voltou ao Brasil, perdeu a mãe, fez peças, filmes e novelas. Desejou um dia ser Marilyn, consagrou-se Rogéria, sem jamais perder de vista o Astolfo que nela vive.

Rogéria em cinco frases:

“Vadico me mandava calar a boca, me dava umas porradas de ciúme, tapas na cara, como Glenn Ford em Rita Hayworth no filme ‘Gilda’. Eu adorava as cenas, e era um delícia apanhar, embora nunca deixasse ele me machucar, que eu não sou louca. E também porque ele era riquíssimo, porque apanhar de pobre, meu amor, é uma merda!” – sobre o relacionamento de um ano com o empresário Oswaldo, o Vadico.

“Eu fiquei uma semana lavando banheiro da boate para poder pagar estadia  e comida. Usei toda a minha capacidade de atriz dramática, coloquei umas luva e lavei latrinas imundas. Não posso ter nenhuma vergonha disso” – sobre as dificuldades que enfrentou ao aceitar fazer uma série de apresentações em Barcelona, na Espanha.

“A mulher não é o órgão genital, a mulher está dentro de mim. Esse jeito de mulher ninguém me ensinou, nasci assim, não aprendi com ninguém. Não necessito de nenhuma genitália feminina” – ao explicar por que nunca fez cirurgia de mudança de sexo.

“Com a injeção de hormônios (de progesterona), meus peitos começaram a pular. Parei na terceira dose. Queria ser a Marilyn, não Jayne Mansfield” – sobre a transformação no seu corpo.

“Minha experiência com drogas teve vida curta. Tomei ácido lisérgico duas vezes. Na primeira, fiquei feito uma idiota conversando com o desenho animado que passava na televisão e, na outra, no apartamento de uma bicha amiga, cabeleireira, cismei que era uma andorinha e queria sair voando pela janela. LSD pode ser muito bom para quem não tem imaginação, mas não é o meu caso” – sobre a relação com as drogas

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