Cansado das brigas na internet?

15 de maio de 2017 | por Caio Soares

O livro ilustrado dos Maus Argumentos é o melhor remédio para a histeria das redes sociais

Pós-verdade. A palavrinha deu tanto o que falar no ano passado que foi escolhida pela Oxford Dictionaries, departamento da universidade britânica responsável pela elaboração de dicionários, como a palavra de 2016. Especialistas, jornalistas e acadêmicos ainda estão intrigados com importantes acontecimentos políticos como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Ambas as campanhas fizeram uso indiscriminado de mentiras, proliferaram boates e notícias falsas nas redes sociais (as chamadas fake news, outro termo da moda) e provocaram abalos na política mundial e nas timelines de todo mundo. Porém, o fenômeno de discussões acaloradas não se limita a acontecimentos políticos, e o clima de histeria é geral.

Se você não aguenta mais entrar em outra discussão infundada com aquele parente distante que acha que está sendo o maioral ou fica ansioso só de olhar a caixa de comentários de sites de notícias, fique tranquilo. O livro ilustrado dos Maus Argumentos é o antídoto perfeito para esses tempos em que a lógica parece passar distante do nosso cotidiano. Diante das discussões cada vez mais absurdas nas redes sociais, Ali Almossawi resolveu resgatar uma dose necessária e urgente de lógica para a era da Internet. Com divertidas ilustrações inspiradas em A Revolução dos Bichos e outras obras de humor peculiar, Almossawi explica as principais falácias que tornam insustentáveis tantos argumentos e debates que vemos por aí.

Algumas falácias são mais facilmente perceptíveis, como a falácia do falso dilema, argumento que apresenta um conjunto de duas opções possíveis e assume que tudo no âmbito daquilo que está sendo discutido deve ser um elemento desse conjunto. Se uma dessas categorias é rejeitada, então se deve necessariamente aceitar a outra. Para os momentos atuais, essa linha de argumentação cai como uma luva. Quantas vezes você já não se viu no meio de uma discussão absolutamente polarizada e não conseguiu mostrar que existem outras opções neste falso duelo?

Também vale a pena mencionar técnicas pouco conhecidas de “abuso da razão”. A falácia do Espantalho, em que se deturpa o argumento do outro para poder atacá-lo com mais facilidade, é vista quase que diariamente em discussões no Congresso Nacional, por exemplo. Ou então o argumento da Bola de neve, em que uma proposição é desacreditada sob a alegação de que levará inevitavelmente a uma sequência de eventos indesejáveis – tão utilizada em discussões sobre temas espinhosos da sociedade brasileira como legalização das drogas.

Apesar de curto, O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos é bem-sucedido na tentativa de apresentar e elucidar para um público mais amplo as principais técnicas argumentativas e armadilhas encontradas em discursos e falas de pessoas públicas ou até mesmo amigos ou parentes.  De forma concisa e simples, Almossawi mostra que o pensamento crítico pode ser explicado em poucas palavras e se utiliza de forma brilhante das ilustrações, uma estratégia pouco usual em um campo que carece de publicações em formatos inovadores e atraentes.

Em tempos em que toda e qualquer discussão é motivo para um frenesi de acusações e ruídos, O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos chega para mostrar que é possível identificar e se afastar de argumentos frágeis que podem acabar com o nosso dia e que há longo prazo podem trazer dados irremediáveis para a sociedade. A importância de conhecer as falácias lógicas é resumida de maneira perfeita por Almossawi nas considerações finais do livro: “Eu espero que você também saia com uma percepção dos perigos dos argumentos frágeis e de como eles são comuns em nossa vida cotidiana”.

Para o leitor que deseja melhorar sua capacidade de argumentação ou apenas atazanar aquele parente no almoço de domingo, O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos é o melhor caminho para recuperar a sanidade argumentativa em tempos revoltos e perceber que o mundo não se resume a textões de redes sociais ou histerias em caixas de comentários de portais.

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