A morte é uma parte natural do ciclo da vida, não uma tragédia

15 de maio de 2017 | por André Sequeira

Em 2010, enquanto assistia a um jogo da Copa do Mundo da África do Sul de futebol na casa de um amigo, recebi um telefonema da minha irmã e médica: “André, peguei o resultado do exame do vovô… ele tem um melanoma.” Com o mundo caindo e sem entender muito bem o que aquilo representava, peguei o carro e fui na mesma hora para casa dela.

Quando entendi melhor a situação, dei-me conta de que daquele momento em diante muita coisa mudaria. Não só existia a possibilidade de um câncer no meu núcleo familiar mais intimo, mas isso ocorria com a pessoa mais importante da minha vida. Aqui quero deixar claro: tenho pai, mãe e irmãos maravilhosos, mas ele era simplesmente a melhor pessoa do mundo, aquela que todos se escoram quando possuem um problema, aquela que, sem você pedir, oferece uma mão, aquela que, simplesmente, ajuda. E não adianta dar algo em troca. Muitas vezes chegava a ser ofensivo para ele. Contudo, dessa vez, ele teria que, sim, contar com a nossa ajuda.

Conversar com ele sobre a doença foi muito difícil, principalmente explicar que, aos 84 anos, uma operação não seria a melhor opção, segundo os médicos. Como explicar que, depois de décadas se dedicando a todos, sua vida poderia acabar dentro de poucos meses.

Com o diagnóstico em mãos, decidimos – esposa, filhos e netos – que começaríamos a quimioterapia no mês seguinte. Após esta etapa, analisaríamos os próximos passos. Foram três/quatro meses de sofrimento para todos, principalmente para o próprio. Dores no corpo, fraqueza, falta de apetite e de sono, prostração e tristeza. O fim estava se aproximando.

Passados as sessões intermináveis deste tratamento, esperamos um mês e realizamos novos exames. Ótima notícia, o câncer tinha diminuído, quase que desaparecido. Passados, contudo, cerca de dois meses, novos procedimentos detectaram que o câncer retornara e, dessa vez, mais agressivo. O mundo de todos caiu mais uma vez. Para piorar, tivemos que nos mostrar ainda mais fortes para não desanimá-lo. A solução agora seria a radioterapia.

Diferentemente da vez anterior, agora ele se negava a realizar o tratamento. Segundo meu avô, ele estava cansado, velho e tudo já havia sido feito. Todos nos desesperamos, pois queríamos muito que ele realizasse mais esta tentativa. Não imaginávamos nossa vida sem ele. Já sem esperanças, minha mãe o chamou para uma conversa e fez apenas uma pergunta: “Sei que está cansado e que acha que a vida já deu, mas você não acha que vale a pena tentar aproveitar nem que seja mais um segundo ao lado dos netos?

Ao contrário do que pensávamos, dessa vez o sofrimento foi gigantesco. Em poucos meses perdeu 14 quilos, e nem água ou sopa conseguia ingerir. Chegou ao ponto em que, ao abraçá-lo, sentíamos todos os seus ossos. Mais um tratamento chegava ao fim.

Infelizmente, a efetividade não foi a que imaginamos. Meu avô, depois de muito lutar, faleceu no dia 11 de julho de 2011. Praticamente um ano após o diagnóstico inicial.
Todo este processo foi extremamente doloroso e tenho certeza que seria um pouco melhor caso soubéssemos como lidar com a equação: câncer + pessoa querida = tristeza profunda. Sinto que poderíamos estar melhor preparados caso tivesse tido alguma ajuda emocional externa.

Alguns anos depois me deparei com a obra O que o câncer me ensinou, de Sophie Sabbage, que me mostrou que tudo poderia ser, sim, diferente. Obviamente, meu avô não estaria vivo, não é isso a que me refiro, mas com certeza o meu sofrimento e o dele teriam sido menores. Eu compreenderia melhor a doença e suas consequências, entenderia melhor a reação de todos à minha volta, pensaria em soluções para amenizar o ambiente e o mais importante: faria tudo ser mais fácil e aceitável para meu avô.

Esta obra sincera traz o relato da autora de como um sério diagnóstico de saúde mudou para sempre – e para melhor – a sua vida. Segundo ela, o surgimento do câncer não pode nos fazer emudecer, mas conversar, sentir. A maior parte das pessoas tende a se fechar numa concha, enclausurando o sofrimento e fazendo com que ele permaneça no seu corpo. A dor emocional acaba, assim, não sendo compartilhada.

Durante o ano em que meu avô esteve doente, nós nunca tivemos a real certeza do que se passava na sua cabeça e, principalmente, em seu coração. Quem melhor para nos ajudar do que alguém que vive esta realidade diariamente?

Sophie Sabbage abrirá os horizontes de todos os leitores, não como médica ou especialista, mas como uma facilitadora da transformação humana: “Posso mostrar-lhe como ficar bem, mesmo quando estiver se sentindo mal, e como resolver as questões emocionais que podem ter contribuído para a sua doença.”

O câncer é uma doença terrível. Fato. A autora em momento algum tentar negar isso. O que ela quer mostrar é que ele pode ser um grande professor para a vida.

 

Conheça o livro “O que o câncer me ensinou”

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