Um sopro de vida, um suspiro de esperança

7 de maio de 2017 | por Alice Dias

Era um dia particularmente barulhento aqui na editora. Eu precisava me concentrar: estava editando um livro importante, difícil. Então peguei meu celular, escolhi a pasta de música clássica, coloquei os fones no ouvido e olhei novamente para o texto à minha frente, na tela do computador.

Durante toda a minha vida fui construindo um potencial, que agora não seria realizado. Eu tinha planejado fazer tantas coisas, tinha chegado tão perto. Estava fisicamente debilitado, com minha identidade destruída, e me encontrava diante dos mesmos dilemas existenciais enfrentados pelos meus pacientes. O diagnóstico de câncer no pulmão foi confirmado. Meu futuro cuidadosamente planejado não existia mais. A morte, tão íntima do meu trabalho, agora me fazia uma visita pessoal. Finalmente estávamos frente a frente, mas agora eu não a reconhecia. Parado diante da encruzilhada ao longo da qual eu havia guiado incontáveis pacientes, eu só via um deserto branco, estéril, áspero e calcinado, como se uma tempestade de areia tivesse apagado todos os vestígios de familiaridade.

As lágrimas se formaram quase imediatamente. Era um relato tão verdadeiro, tão humano, que precisei respirar fundo para continuar o trabalho. Quando você se depara com histórias como essa, é impossível não refletir sobre a própria vida e o que anda fazendo com ela.

Paul Kalanithi era um médico brilhante, que construiu sua carreira baseada na preocupação genuína com o sofrimento do outro. Então, aos 36 anos, a morte cruzou seu caminho. Um câncer de pulmão agressivo e inoperável interrompeu todos os seus planos.

Em O último sopro de vida – sem dúvida um dos livros mais lindos em que já trabalhei nesses 13 anos de editora – ele faz um relato comovente de sua trajetória, desde o aparecimento dos primeiros sintomas (que ele ignorou, como tanta gente faz) até o momento em que mal tinha forças para escrever.

Mas a diferença desse livro para todos os outros sobre a doença é a beleza do estilo do autor e o misto de esperança e desesperança presente no texto. Paul faz uma reflexão profunda, quase filosófica, sobre o sentido da vida, dos relacionamentos e do amor. Ao mesmo tempo, discute a ética médica, a literatura, a necessidade de entendermos a efemeridade da vida e aceitarmos a inexorabilidade da morte. E faz isso sem ser piegas, sem melodrama, com uma honestidade perturbadora.

Confesso que enquanto lia as memórias de Paul eu me senti mesquinha pelas minhas reclamações mundanas, pelos meus medos bobos, pelas minhas dúvidas irracionais. Eu me senti pequena diante da grandiosidade daquele sujeito, que enfrentou com tanta coragem a batalha mais difícil de todas – embora, no final, tenha perdido a luta.

E quantas lutas a gente trava no dia a dia acreditando que são as maiores da nossa vida? Quantas vezes nos deixamos abater diante de problemas sem solução ou de situações que não podemos controlar? E quantos sonhos deixamos para depois, acreditando que teremos todo o tempo do mundo para realizá-los?

Paul deixou uma marca em mim. A história dele não é só um belo relato de alguém diante da morte. É uma narrativa poética que encanta e incomoda. É uma história de amor incondicional. É uma voz amiga que faz você se perguntar: O que faz minha vida valer a pena? Será que estou desperdiçando minha chance de viver e ser feliz agora?

Quando não pode usar o bisturi, as palavras são a única ferramenta do cirurgião, disse ele num trecho do livro. Hoje Paul não pode mais manejar um bisturi, mas com certeza suas palavras ficarão costuradas para sempre no coração de seus leitores.

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