Serão os bancos os grandes vilões da economia?

7 de maio de 2017 | por Gustavo Cerbasi

Tenho ouvido muitos de meus leitores questionarem o papel dos bancos na economia brasileira.

Pudera, pois o tamanho dos lucros dos bancos brasileiros realmente é bastante expressivo, muitos na casa dos bilhões de reais nos últimos anos. Será que os bancos fazem tanto lucro porque “exploram” seus clientes? É sobre este assunto que eu gostaria que você refletisse um pouco neste artigo.

O que é um banco? Um banco nada mais é do que uma empresa que se propõe a “cuidar” do dinheiro de seus clientes. Ao invés de deixarmos nosso dinheiro em casa, parado e correndo riscos, confiamos nossa preciosa riqueza a uma instituição financeira, que além de guardar e proteger nosso dinheiro gera também juros (remuneração) sobre nossos investimentos. E estes juros não vêm do nada; os bancos também recebem juros sobre nosso dinheiro. O dinheiro que é confiado aos bancos é usado – pelos próprios bancos – para que outros clientes o tomem emprestado e paguem juros mais elevados.

Quanto mais pessoas aplicarem dinheiro, mais dinheiro estará disponível para os bancos emprestarem. Quanto mais dinheiro estiver disponível para ser emprestado, maiores serão as alternativas de linhas de crédito para empréstimos e financiamentos. Uma economia em que muitos poupam e muitos tomam emprestado, como acontece nos países desenvolvidos, gera muitos lucros aos bancos.

No Brasil, poupa-se menos do que se deveria. Em outras palavras, consumimos mais do que deveríamos, e poupamos menos do que seria saudável para o futuro de nossas famílias. Obviamente, quando falo que consumimos mais do que deveríamos, não me refiro aos que mal têm o que comer, que ganham menos do que dois salários mínimos; refiro-me à classe média em geral.

Lembre-se que a classe média brasileira é endividada porque decide por gastos que não suportará no futuro. Gasta tudo que ganha e um pouco mais, e não sobra nada para poupar. A conseqüência é que os bancos têm poucos recursos para emprestar, pois o brasileiro não hesita antes de tomar empréstimos e os recursos disponíveis esgotam-se rapidamente.

Vivemos na pátria dos endividados, onde comprar a prazo ou financiado é um hábito do dia-a-dia das pessoas. Como os bancos não recebem tanto dinheiro quanto é demandado por seus clientes que querem empréstimos, eles são obrigados a manter seus juros de empréstimos elevados. Quando muitos querem algo que é raro (o dinheiro), aqueles que oferecem o produto sentem-se confortáveis em manter os preços lá em cima. Não tem segredo, é o mesmo que acontece na feira! As frutas que estão em falta custam mais caro, não custam?

Onde está o problema? O problema é que muitos aceitam usar o dinheiro disponibilizado pelos bancos, mesmo que os juros estejam em níveis astronômicos. E os bancos acabam fazendo lucros interessantes, pois mesmo oferecendo um produto caro – isto é, o dinheiro, a um aluguel (juros) absurdo – há muita gente aceitando este produto a este preço. Não tenho a menor dúvida de que dentre os grandes vilões da economia estão aqueles que costumam se colocar como vítimas: os endividados voluntários, que optam por comprar tudo a prazo e depois perdem o controle de seu orçamento.

Pessoas que gastam mais do que têm, deixam de fazer poupança (empurrando para o governo ou para os filhos a obrigação de alimentá-los na velhice), compram tudo financiado sem controlar seu orçamento, consomem todas as linhas de crédito que seus vários bancos e cartões de crédito oferecem. Geram o caos na economia, aquecendo o comércio em datas festivas – através do uso dos financiamentos – e depois passando meses sem consumir um único centavo.

Há solução? Sim, não tenho a menor dúvida, e venho batalhando por esta solução há muito tempo. A solução para a economia brasileira começa em cada lar, por cada indivíduo. É preciso gastar menos do que se ganha, planejar gastos e reservar um pouco para o futuro. Investir! Devemos usar os bancos – no sentido mais agressivo do verbo “usar” – no sentido de conhecer melhor as possibilidades de investimentos. Nossos gerentes de conta estão lá para nos oferecer produtos da melhor qualidade, investimentos que oferecem juros interessantes mesmo a um nível de risco insignificante.

Se formos clientes passivos, não exigirmos investimentos melhores, eles nos oferecerão os piores produtos, que lhes proporcionarão maior lucro. Este é o negócio deles. E funciona assim em qualquer negócio: os piores produtos vão para os consumidores menos exigentes, produtos especiais vão para clientes especiais. E estes clientes especiais também gerarão muito lucro aos bancos, pois, ao formar maior poupança, proporcionarão mais recursos a serem emprestados.

Quando chegar o grande dia em que mais pessoas aplicarão dinheiro do que aquelas que tomarão emprestado, os bancos terão que se virar com um problema: o que fazer com o dinheiro que está sobrando? Eles terão que “liquidar”, isto é, oferecer a juros mais baixos, incentivando as pessoas a tomarem emprestado. É como acontece em economias desenvolvidas, onde se financia a casa própria a juros desprezíveis, porque aqueles que tomam emprestado têm uma boa poupança ou um bom investimento pessoal garantindo aquele financiamento.

Cuidado, leitor, com a imagem que passam a você de instituições com as quais você lida diariamente. Ao invés de praguejá-las, explore-as de forma saudável, use seus recursos. Aproveite melhor seu banco, sua corretora de valores, sua empresa de investimentos; informe-se melhor sobre elas. Veja se você não é o próprio vilão de sua história de limitações financeiras!

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