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SARAIVA | CULTURA

A marca da vitória

7 de maio de 2017 | por Editora Sextante

Quando resolvi mencionar a Ideia Maluca ao meu pai, depois de ter reunido toda a coragem necessária, assegurei-me de que acontecesse no início da noite. Essa era sempre a melhor hora do dia para falar com ele. Era o momento em que meu pai estava relaxado, bem alimentado, acomodado em sua poltrona reclinável no cantinho da TV. Ao inclinar a cabeça para trás e fechar os olhos, ainda posso ouvir o som do auditório rindo, as músicas-tema dos programas favoritos dele: Caravana e Rawhide.

O que meu pai mais amava, porém, era o programa de Red Buttons. Todos os episódios começavam com Red cantando: Ho ho, hee hee… strange things are happening (Ho ho, hee hee, coisas estranhas estão acontecendo).

Coloquei uma cadeira de encosto reto ao lado dele e dei um sorriso amarelo, esperando pelo próximo intervalo comercial. Eu havia repassado o meu discurso na cabeça, muitas e muitas vezes, principalmente o início. E aí, pai, você se lembra daquela Ideia Maluca que eu tive em Stanford…?

Eu estava cursando uma de minhas últimas matérias e precisava preparar um seminário sobre empreendedorismo. Tinha feito um trabalho de pesquisa sobre calçados que acabou evoluindo de uma tarefa comum para uma total e completa obsessão. Como corredor, conhecia um pouco sobre tênis de corrida. Sendo um entusiasta dos negócios, sabia que as câmeras fotográficas japonesas haviam invadido o mercado antes dominado pelos alemães. Assim, argumentei no meu trabalho que os tênis de corrida japoneses poderiam fazer o mesmo. A ideia me interessou, me inspirou e me cativou. Parecia tão óbvia, tão simples, tão potencialmente gigantesca…

Dediquei semanas e mais semanas a esse trabalho. Praticamente me mudei para a biblioteca e devorei tudo o que encontrei sobre importa- ção e exportação e sobre como abrir uma empresa. Finalmente, como esperado, fiz uma apresentação formal do trabalho para meus colegas de classe, que reagiram com um tédio formal. Nenhuma pergunta foi feita. Eles me parabenizaram por minha paixão e intensidade com fortes suspiros e olhares vazios.

O professor achou que minha Ideia Maluca tinha algum mérito: me deu nota A. E foi só isso. Pelo menos, deveria ter sido. Na verdade, nunca deixei de pensar naquele trabalho. Ao longo de todo o restante do meu tempo em Stanford, de todas as corridas matinais até aquele momento no cantinho da TV, fiquei imaginando a possibilidade de ir ao Japão, encontrar uma empresa de calçados e apresentar a eles a minha Ideia Maluca, na esperança de que tivessem uma reação mais entusiástica do que a de meus colegas de classe e de que talvez quisessem se associar a um rapazinho tí- mido, pálido e magricela do sonolento Oregon.

Também brinquei com a possibilidade de fazer um desvio exótico do meu caminho para o Japão. Como posso deixar minha marca no mundo, pensei, se não andar por ele e conhecê-lo? Antes de correr uma grande prova, é sempre bom caminhar pela pista. Uma viagem como mochileiro ao redor do globo poderia ser uma boa, avaliei. Naquela época, ninguém falava em listas do que fazer antes de morrer, mas suponho que fosse isso mais ou menos o que eu tinha em mente. Antes de morrer, de ficar muito velho ou exaurido demais com as minúcias do dia a dia, queria visitar os lugares mais belos e surpreendentes do planeta.

E os mais sagrados. É claro que eu queria provar comidas diferentes, ouvir outras línguas, mergulhar em outras culturas, mas o que realmente ansiava era por uma conexão, com C maiúsculo. Queria experimentar o que os chineses chamam de Tao; os gregos, de Logos; os hindus, de Jnana; os budistas, de Darma. O que os cristãos chamam de Espírito. Imaginei que, antes de partir para minha viagem pessoal, precisaria entender a viagem maior da humanidade. Precisaria explorar os mais grandiosos templos, igrejas e santuários, os rios e as montanhas mais sagrados. Precisaria sentir a presença de… Deus?

Sim, disse a mim mesmo. Por falta de uma palavra melhor, Deus.

Antes de tudo isso, porém, precisava da aprovação do meu pai.