Histórias que deram o que falar [Parte 1]

7 de maio de 2017 | por Nana Vaz de Castro

Ignaz Semmelweis e o contágio entre dissecação de cadáveres e partos

Este é um caso clássico quando o assunto é a dificuldade de promover mudanças.

Ignaz Semmelweis era um médico húngaro que trabalhava no prestigioso Hospital Geral de Viena na década de 1840. Neste hospital havia duas maternidades: a Primeira Clínica, dedicada ao treinamento de médicos, e a Segunda Clínica, destinada exclusivamente ao treinamento de parteiras. Por razões que ninguém conseguia explicar, o índice de mortes de mulheres logo após o parto, por infecção puerperal, era muito maior da Primeira Clínica.

Cientes deste fato, as mulheres imploravam para não ser atendidas na Primeira Clínica, e por vezes optavam por ter seus bebês na rua para não engrossar as estatísticas macabras.

Semmelweis ficou muito intrigado com a disparidade dos números, e passou a listar todas as possíveis diferenças entre as duas clínicas, na tentativa de explicar uma discrepância tão grande. Finalmente chegou à conclusão que os médicos da Primeira Clínica lidavam com a dissecação de cadáveres para fins de pesquisa, e muitas vezes iam direto do necrotério para as salas de parto. Na Segunda Clínica, as parteiras não lidavam com cadáveres.

O médico se convenceu que alguma coisa invisível passava dos cadáveres para os médicos, e deles para as gestantes, e essa alguma coisa era a responsável por tantas mortes. (Vale ressaltar que, na época, a teoria dos germes ainda não havia sido desenvolvida e divulgada.) O problema era que Semmelweis não sabia explicar que coisa invisível era essa.

Mesmo sem ter todas as respostas, em 1847 ele conseguiu convencer seus colegas a fazer uma experiência: lavar as mãos entre as dissecações de cadáveres e os partos.

Os resultados foram inacreditáveis: A taxa de mortalidade materna em abril daquele ano na Primeira Clínica foi de 18,3%. Em meados de maio foi instituída a prática de lavar as mãos. Em junho, o índice caiu para 2,2%, baixando para 1,2% em julho. Nos dois anos seguintes a taxa se manteve nesse nível (o mesmo nível da Segunda Clínica), e em alguns meses chegou a zero.

O sucesso avassalador da prática instituída por Semmelweis, no entanto, não foi suficiente para convencer a classe médica. Muitos de seus colegas se revoltaram com a hipótese de que suas mãos estariam carregando agentes mortais. Eles eram cavalheiros, afinal, e as mãos de um cavalheiro estavam sempre limpas. Sua posição no Hospital Geral se tornou precária, e ele acabou sendo expulso, retornando à Hungria.

Sem a supervisão de Semmelweis, a prática de lavar as mãos antes dos partos foi abandonada. O resultado? A mortalidade de mães e bebês aumentou em 600%. Mas nem isso foi suficiente para convencer os médicos vienenses.

Semmelweis só seria vingado depois de sua morte, quando Louis Pasteur desenvolveu a teoria microbiana das doenças, fornecendo um arcabouço teórico para o que o médico húngaro descobrira na prática.

Essa história demonstra, de forma bastante dramática, como é difícil desafiar o status quo. Mesmo em um ramo empírico como a medicina, a inovação enfrenta sempre forte resistência.

Livros que citam as Histórias que deram o que falar:
1001 ideias que mudaram nossa forma de pensar
How to Fly a Horse, de Kevin Ashton (sai pela Sextante ainda em 2016)
Guia rápido para uma vida longa, de David B. Angus

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