Histórias que deram o que falar [Parte 2]

7 de maio de 2016 | por Nana Vaz de Castro

Joseph Bazalgette e os esgotos de Londres

Esta é uma história que já vimos citada em vários livros quando o assunto é planejamento e visão estratégica.

No século XIX, Londres já era uma grande metrópole, e sua população não parava de crescer e se adensar, em especial nas regiões mais pobres, que eram bastante insalubres. O Rio Tâmisa era praticamente um esgoto a céu aberto, o que ocasionou diversos problemas de saúde pública, como epidemias de cólera.

O mau cheiro que o rio exalava era desesperador, e o problema atingiu o ápice no verão de 1858, quando o forte calor provocou um episódio conhecido como “Great Stink” , ou “Grande Fedor”. (Os detalhes podem ser imaginados.)

Logo em seguida o Parlamento inglês destinou uma verba considerável para resolver o problema com urgência.

Entra em cena o engenheiro civil Joseph Bazalgette, apontado como responsável pela questão dos esgotos. Bazalgette foi bastante audacioso. Seu projeto aterrou grandes extensões de terra às margens do rio (os famosos “Embankments” que existem até hoje), construiu milhares de quilômetros de manilhas subterrâneas pela cidade, abriu espaço para novas linhas de metrô e outras tubulações subterrâneas, como dutos de gás, e estreitou o leito do rio, fazendo-o correr mais rápido.

O grande pulo do gato deste engenheiro, que o faz ser citado até hoje como grande visionário, foi o diâmetro que resolveu dar aos canos de esgoto. Quando precisou avaliar qual seria o volume dos esgotos a ser comportado pelo sistema, Bazalgette fez os cálculos usando como base a população de Londres na época, e seu crescimento projetado. Então usou o número mais generoso possível para a produção de esgoto per capita, e chegou a um resultado, que significava um diâmetro X para os canos – uma enormidade para os padrões da época.

Pois bem. Não satisfeito, Bazalgette decidiu que, como aquela obra deveria durar por muito tempo, os canos teriam um diâmetro de 2X! Ou seja, ele dobrou o diâmetro que já representava uma projeção pra lá de generosa. Graças a essa decisão, os canos do século XIX continuam sendo usados até hoje – caso tivesse optado pelo diâmetro X, nos anos 1960 o sistema teria ultrapassado sua capacidade operacional.

Numa época em que muito se fala de “legado de obras para as cidades”, o exemplo dos esgotos de Londres merece ser lembrado.

Livros que citam As Histórias que deram o que falar:
City: A Guidebook for the Urban Age, de P.D. Smith
100 Greatest Science Inventions of All Time, de Kendall Haven

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